terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Da vida à aurora


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Poética - Vinicius de Moraes


1


Aquele dia não me era estranho. Tudo o que vinha ocorrendo desde que eu acordara, naquela terça-feira nublada, também se repetia por todo o país e durante milhares de ano.
Enquanto eu andava pelas ruas esburacadas de São Paulo, tentava desviar os olhos das luzes de natal que enfeitavam as vitrines das lojas, as janelas das casas e dos prédios, as árvores da rua... O meu roupão azul escuro se arrastava pelo chão, e por baixo dele eu vestia um pijama largo, confortável – e completamente inadequado para sair na rua – além de chinelos de dedo dois números maiores que os meus. As pessoas que andavam na rua, com suas sacolas cheias de presentes e seus cartões de crédito estourados na bolsa, me olhavam torto, como se não acreditassem no que viam. Porque diabos aquela jovem não está gastando seu salário inteiro nessas grandes e enfeitadas lojas?
Acendi um cigarro enquanto virava uma esquina movimentada. As pessoas deviam estar correndo atrás dos últimos preparativos para aquele dia: comprando os ingredientes que faltavam para a grande ceia, ou aquele presente que esqueceram de comprar para um parente distante, que ninguém nunca se lembrava. Já eu, só saíra do meu apartamento minúsculo porque precisava de um isqueiro.

De volta ao meu prédio cor-de-tijolo, peguei a chave do bolso do roupão e abri a porta com um empurrão. Tudo estava exatamente do jeito que eu deixara: O sofá desconfortável perto da televisão pequena, o tapete vermelho que eu ganhara da minha mãe quando me mudei para cá, o cinzeiro cheio na mesinha de centro, as roupas jogadas pelo chão, cheiro de arroz queimado... Corri para a cozinha para desligar o fogão quando percebi que a luz da caixa de mensagens do telefone piscava. Depois de desligar o fogo, abrir a tampa da panela e concluir que seria melhor fazer um miojo, apertei o botão para ouvir a mensagem de voz.

Filha, seu pai e eu ainda não entendemos porque você preferiu passar o Natal sozinha e não aqui com a sua família. Nós sabemos que a faculdade está lhe tirando bastante tempo, mas uma época como essa você devia passar com a sua famíl...

Aquilo era o que vinha acontecendo durante toda aquela semana. Nunca entendi a fascinação das pessoas com o Natal, afinal é apenas mais um dia comum a não ser pelos enfeites exagerados e pela hipocrisia redobrada . Preferi excluir a mensagem ao invés de ouvi-la até o final – já sabia tudo o que a minha mãe iria falar. Decidi que mais tarde ligaria para ela e desejaria feliz Natal, falaria que estava bem e que não estava passando o natal sozinha, muito pelo contrário... Eu não estava mesmo... Estava?
Fariam quase seis meses que eu havia saído de casa. Depois que passara na faculdade, fiz minhas malas, dei tchau para Minas Gerais e me mudei para o centro de São Paulo com um sorriso de orelha a orelha. Consegui alugar um apartamento simples – até demais – e que ficava apenas a alguns quilômetros do Campus, e desde então só havia voltado para casa duas vezes. Em primeiro lugar, porque a viagem era cansativa demais. Depois, precisaria gastar um dinheiro que não tinha. E por fim, odiava as reuniões de família que meus pais faziam quando eu voltava para casa. Não que eu não gostasse da minha família – eles eram ótimos – eu apenas não me sentia bem sendo o centro das atenções. E no Natal as coisas seriam dez mil vezes piores, com toda aquela decoração, aquelas músicas com sinos, os homens imitando a risada assustadora do Papai Noel, aquelas crianças bobinhas perguntando a cada cinco minutos se poderiam abrir os presentes, as tias gordas querendo saber sobre os “namoradinhos”... Namoradinhos uma ova.
Havia outra mensagem. Dessa vez não era a minha mãe, e eu poderia reconhecer aquela voz de longe.
Uma respiração rápida e ofegante. O barulho de alguma coisa caindo. Ah, ele estava bravo, eu sabia, já esperava por aquilo.

“Você não vai fazer isso comigo, sua...”

Tem certeza que deseja apagar todas as mensagens? – A voz feminina perguntou. Sim, claro que tenho. Depois, arranquei o fio do telefone. Ninguém mais iria me incomodar.

2

Começava a escurecer, e eu estava sentada no sofá envolta em um edredom cor-de-rosa. Uma panela com o resto do miojo que sobrara do almoço estava na mesinha de centro, junto com uma garrafa de Vodka quase pela metade, o cinzeiro amontoado, um livro que decidira ler há quase um mês, mas não conseguia terminar, e algumas latinhas de cerveja amassadas. Com o controle na mão, eu mudava de canal radicalmente. Filme de natal, programa de natal, comercial de natal, filme de romance – argh! – filme de natal, canal do boi... Desliguei a televisão enquanto enchia o copo vazio de Vodka pela terceira vez. Odiava beber aquilo puro, mas não havia nada na geladeira que eu pudesse misturar. Tampei o nariz e bebi de um gole só. Parecia que a minha garganta queimava.
A janela da pequena sala refletia as luzes dos pisca-piscas da cidade. Eu estava sozinha naquele prédio, tinha quase certeza – uma vez que ele era tomado por universitários, e estes estariam com suas famílias naquele momento. Uma lista de nomes passou pela minha cabeça, mas pensei duas vezes antes de ligar para alguém. Iria soar muito solitário e, além disso, eu estava bêbada.
As coisas giravam lentamente, e eu senti uma vontade súbita de chorar que quase se concretizou. Fechei os olhos por um segundo, e no instante seguinte, não sei se minutos ou horas depois, aquela silhueta masculina e familiar se aproximava com a expressão que já lhe era tão típica no rosto: Uma arrogância levemente disfarçada. Vestia uma camisa pólo branca e bem passada, calça jeans de marca, sapatos pretos caríssimos, um blazer esportivo escuro e elegante. Os cabelos, bagunçados propositalmente. Como ele entrou aqui?

- A porta estava aberta – Disse, se aproximando. Ele se ajoelhou para que ficássemos cara a cara, uma vez que eu estava deitada no sofá. Sentia-me fraca e enjoada – e com vergonha por ele me ver naquele estado. Não que eu me importasse. – Sabia que estaria aqui. Não quis deixar que passasse o Natal sozinha. Eu não consegui te ligar para avisar, então...
- Foi uma escolha minha passar o Natal sozinha. Tinha o propósito de não ter companhia nenhuma hoje.

O olhar dele me dava raiva, parecia um cachorro abandonado.

- E porque é que você se deu o trabalho de vir até aqui, afinal? - continuei - Ainda mais depois da mensagem carismática que me deixou hoje. Não passou pela sua cabeça que talvez eu não queira te ver? Porque você sempre precisa fazer isso? – Eu me sentei abruptamente, ignorando a sala que girava à minha volta. – Deixei claro que não queria que você me procurasse mais.

Bingo! Quem sabe depois daquilo ele iria embora de vez? Uma das coisas boas em beber é que você nunca poupa palavras.
Mas ele não respondeu. Eu já previra a reação dele, era ótimo em ignorar as pessoas. Nunca vi gente mais mimada e egoísta! Eu o encarei enquanto ele, por sua vez, encarou a garrafa quase vazia de Vodka que estava acima da mesinha de centro. Eu o conhecia o bastante para saber que, ao contrário de muitas outras pessoas, ele não iria me chamar a atenção por aquilo, por estar embriagada. Levantou-se, sentou-se ao meu lado no sofá e bebeu a Vodka direto da garrafa. Fez uma careta, e eu sabia que não era pelo gosto forte. Ele era o tipo de pessoa fã dos destilados, dessas preferem uma boa dose de uísque puro do que uma lata de cerveja.
- Essa Vodka é horrível. – Comentou.

Odeio ele.
Quando dei por mim, estávamos os dois assistindo um desses Especiais de Natal que nos deixam depressivos. No fundo, éramos praticamente iguais. Duas pessoas profundamente decepcionadas com a vida e embriagadas, solitárias, arrogantes e “do-contra”. Se não fosse pelo dinheiro que ele tinha e eu não e pelo pênis que ele carregava no meio das pernas desde que nascera, poderíamos ser a mesma pessoa.
A briga de hoje foi costumeira. Mas ao contrário de sempre, eu falei sério quando disse que não o queria mais na minha vida. Duas pessoas tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo são um perigo. Anotei mentalmente dizer tudo o que pensava para ele na manhã seguinte, apesar de que sabia que ele não desistiria assim tão fácil. Não estava acostumado a ser rejeitado, o coitado, e provavelmente apareceria na minha porta com uma caixa de chocolates ou, quem sabe, um smartphone novo.

3

Meia-noite. As pessoas provavelmente estavam se abraçando e desejando feliz natal uns aos outros naquele instante, meus pais provavelmente estariam tentando me ligar enquanto eu deveria estar tentando ligar para eles. No meu apartamento, a televisão estava desligada, o único som era o da nossa respiração e da música ruim que tocava no rádio. Havíamos acabado com a garrafa de Vodka, e ele acendera um de seus charutos. Fumávamos em silêncio, sem pensar nem por um momento em desejar feliz natal um ao outro. Eu o observei por um instante tirar a franja do olho, limpar o suor da testa, olhar nos meus olhos e passar o charuto para mim. Dei risada, não que tivesse sido algo engraçado, mas por conta da situação. Ele também deu risada, enquanto contornava o formato do meu rosto com os dedos.
Longe dali, escutamos alguns poucos fogos de artifício. Estávamos os dois deitados na minha cama, e eu não fazia ideia de como fomos parar ali. A embriaguez nos havia consumido por completo, e flutuávamos em meio a fumaça densa e branca do charuto.

***

Ele roncava. Eu, por outro lado, não conseguia dormir. Parecia que o álcool tivera o efeito contrário em meu corpo, como se eu tivesse tomado café no lugar da vodka. Virei de frente para ele: Sem camisa, a franja caindo no olho, a boca entreaberta. Estava engraçado, mas sexy. Dei um risinho baixo, com medo de acordá-lo. 
Lentamente, enquanto o observava, comecei a me arrepender. Estava me sentindo desconfortável, não queria ter chegado àquele ponto. Era verdade que não queria mais vê-lo, e pelo jeito nem eu mesma me levava a sério. Decidi virar de costa para ele, deixar de encará-lo, quem sabe até esqueceria o formato de seu rosto. Mas então, ele passou um braço por minha cintura e me abraçou. Enrijeci os músculos, tive vontade de gritar.
Eu sabia o porquê daquilo tudo, afinal. O fato de que eu estava bêbada fora apenas um ingrediente a mais. Eu também me sentira só. De uma forma ou de outra, eu ansiava por companhia, nem que fosse a dele. Isso tudo me fez ignorar o que eu já tinha em mente – "ele é patético, mas é bonito, rico e veio até aqui hoje, por mim. Não importa o fato de que eu sinto vontade de estrangulá-lo até a morte, ou de que nesse instante eu quero sumir e nunca mais aparecer."
Submissão.
Resolvi me levantar. Dei uma olhada no espelho antes, só para ter certeza que estava ao menos apresentável. Não estava, mas também não me importava. Saí de pijama mesmo, descalça, fechei a porta atrás de mim com cuidado. Nem olhei para trás.
Era madrugada, um tempinho gostoso, o ar poluído de São Paulo quase parecia puro. Não havia ninguém nas ruas para me olhar torto, mas de um modo estranho eu desejei que houvesse. Do outro lado da rua, havia um banco de madeira polido, simples, que ficava em uma praça pública mal localizada. E as luzes de Natal ainda brilhavam.
Foi ali, enquanto atravessava a rua a passos mudos e com os pensamentos em qualquer lugar que não aquele, foi ali que me deparei com um verdadeiro impasse da vida, desses que te pegam pela orelha e te arrastam por estradas escuras e infinitas. Através do clarão que poderia ser um farol, eu já não me vi.
Deixei de existir tão rápido quanto me embriaguei, ou quanto dormi com ele, ou mesmo tão extraordinariamente rápido como quando ele chegou no meu apartamento pequeno naquela tarde, assim do nada, de um jeito idiotamente elegante. Eu apenas dormi sem desejar feliz natal, Merry Christmas... Ou mesmo Joyeux Noël
A vida simplesmente escureceu.

"Ó doçura da vida: Agonizar a toda a hora sob a pena da morte, em vez de morrer de um só golpe."
                                                         William Shakespeare

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Misantropia



Ela olhou no espelho e se viu um lobo. Sob a luz amarelada do banheiro, seu reflexo a encarava: olhos hostis, a boca fechada raivosamente - portava um ar de rebeldia melancolicamente diabólico. Era o resultado de sua vida politicamente incorreta.
O momento era oportuno: Apodrecia como uma maçã esquecida em baixo da cama. Ela caía, a garota, em uma espiral para o fundo, e além...
Falava tudo desapegadamente, como se fosse uma peça solta e desenganchada. No final, depois de tantas vírgulas, eis que permanecia estranhamente longe. E quando acordava no meio da madrugada por causa de um sonho ruim, olhava no espelho e se via um lobo: Sozinha. Perigosamente carnívora.
O escudo que devia protegê-la virou-se contra ela. O príncipe enraivou-se contra a princesa, o espelho contra a rainha: Seu medo a comeu viva. E a coitada, menina-lobo, batom vermelho-sangue - ela simplesmente sorriu. Era misantropia pura, a garota...

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cinzas


O vício, este impregnava-se como um câncer maligno. Do cigarro que traguei, das formas brandas e brancas que o vento, traiçoeiro, apagou: devo nada mais que mil palavras roubadas. Quando me vinha à boca e os pulmões inchavam, frases feitas esvaiam-se sorrateiramente, sumindo em meio as ondas tóxicas de nicotina.
Perniciosamente, tirou-me a vida. E da vida, dessa vida não me resta nada mais que um pouco de cinza, olha só... Um pouco de cinza e nada mais.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Asas



Eu nunca havia notado como a lua fica tão feia quando pisa em cima de mim, como a rua consegue ter tantos buracos ameaçando me engolir, como as árvores ficam nuas enquanto as folhas que deveriam revestí-las caem aos seus pés, sem vida. Eu nunca percebi o quanto as pessoas podem ser irritantes, nem como a madrugada consegue ser tão silênciosa ou como o seu cheiro característico me dá náuseas.
Talvez hoje seja um daqueles dias em que a gente percebe o quanto as coisas estão fora de ordem, as pessoas estão fora de si, em que você sente as suas asas platinadas sendo rompidas pelo vento que soprou forte demais. Talvez eu esteja acordando agora, um pouco tarde - eu sei - só para perceber as pequenas falhas dessa vida.
Você contou nos dedos os meus imprevistos, apontou-os para mim enquanto se embriagava naquele whisky barato, e eu fui ficando fria, fria, fria, e senti minhas asas quebradas congelando, pesando em minhas costas e se estilhaçando no chão, fazendo voar pedacinhos minúsculos de gelo ao nosso redor. Eu disse: entra, fique à vontade, não repara a bagunça - enquanto empurrava com os pés uma peça de roupa suja para trás da porta. Você olhou em volta com um sorriso meio torto, com cara de quem não sabia bem o que estava fazendo ali, depois entrou relutante e disse para eu me acalmar, porque as coisas não eram do jeito que eu achava que era. E tinha razão, afinal - agora, enquanto noto as imperfeições que me rodeiam, percebo o quanto eu via rosas onde só havia hibiscos.
Eu sei que as pessoas vão me pedir cuidado. Sei também que pela milésima vez não lhes darei ouvido. Talvez porque eu seja tão extremamente insignificante que o sofrer me seja necessário para que não morra de tédio. Deve ser por isso que sou o tipo de pessoa que narra uma história de amor sem nunca ter protagonizado uma.
De qualquer jeito, eu sei que amanhã você estará batendo à minha porta como quem não quer nada, escondendo algumas implicâncias dentro da calça só para me fazer chorar. Do mesmo jeito eu vou abrir a porta e te deixar entrar, insistindo em socar a mesma tecla que já nem funciona mais - só para acordar na manhã seguinte com gosto de bebida na boca, dor de cabeça e a sensação de que a lua é feia, as pessoas são irritantes e o seu maldito cheiro me dá náuseas.
Foi assim, desse jeito, que até hoje nenhum dos seus adeus durou para sempre.
E nem os meus.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Numb

... E tentar fugir do inevitável, sempre pisando em nuvens e achando que se eu me desvencilhar desse avião, ele não vai voltar mais rápido e potente para me machucar. Que engraçado esse meu jeito ímpar de achar que se eu me esconder aqui dentro, o que me faz mal irá embora sem olhar para trás.
A verdade é que sinto-me tão numb nesse momento que é como se não sentisse mais nada. É a hora perfeita para fugir de você.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A corrida

Tem pressa em atravessar a ponte, em subir as escadas, em escalar as montanhas. Seu futuro está longe, tirando um cochilo - recusa-se a acordar. E ela, tão apressada, tão miúda - insiste em correr com seus pés pequenos a fim de alcançá-lo de uma vez.

A coitada foi jogada no mundo pelo braço, e caiu desajeitada no meio da multidão. Esta, tão maior que era, a devorava, enquanto a pobre tentava ignorar as cotoveladas que recebia. Pensou, certa vez, que havia encontrado o que achara um dia não existir. Bobagem - era mais um fósforo que se apagava tão rápido quanto acendia.
Em sua ira, decidiu renunciar. Estava tão feliz, ora - não precisava de mais uma vírgula para atrasar suas frases. Fechou a cara, finalmente deu as costas. Dobrou a esquina sem olhar para trás.
Uma semana depois, quase se arrependeu. Pensou que se tentasse, talvez conseguisse reacender a chama. Mas só pensou, porque sabia que seria impossível. Só pensou, porque gostava de pensar - e pensava principalmente nele, no fósforo. Na chama. Sua sorte foi que não era o tipo de garota que gostava de se decepcionar.
Foi a primeira vez que ignorou a si própria - não se deu ouvidos. Continuou, então, sua corrida desenfreada pela vida, refletindo ocasionalmente sobre o que poderia ter acontecido se tivesse pelo menos tentado. A palavra em sua cabeça ofuscava seus pensamentos de forma clara: Nada.

Hoje, ela respira - não suspira. Sabe, enquanto corre, que não poderia ter sido diferente. Principalmente porque não está mais correndo sozinha, a garota. De mãos dadas com o que o destino lhe reservou, finalmente conseguiu se desvencilhar da multidão.
E a corrida continua.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A beleza da insanidade

De vez em quando, necessitamos olhar dentro de nós mesmos.

Até onde as linhas das mentes mais instruídas alcançam, temos a constatação de que beleza é terror. Afrontam-nos o desejo e a necessidade de se arrancar as normalidades e renascer na forma mais crua possível, evitando as bordas da sensatez: mergulhar naquilo que se encontra apenas no âmago das mentes mais prolixas. Trazendo as palavras de Freud em relação ao ID: "Nós chamamos de (...) um caldeirão cheio de excitações fervescentes." Derrubemos o caldeirão, então. Banhemo-nos em nossa própria loucura! Deixemos de lado o ego e o superego e sejamos tomados pelas pulsões do nosso inconsciente... Somos tão diferentes dos gregos antigos, a ponto de que alcançar a loucura divina seria absurdo? Até que ponto seríamos capazes de perder o controle e assassinar a nossa mortalidade, ignorando a razão e a moral, a fim de nos tornarmos por inteiros prisioneiros dos instintos do nosso ID, a parte mais primitiva e menos acessível da personalidade? A loucura em sua forma mais cruel pode ser fascinante aos olhos de quem enxerga a verdadeira beleza. Porque beleza, em sua veracidade, é terror.
Desejamos, como as árvores esquizofrênicas que açoitam lá fora, ser devorados pela beleza, dissolver nosso ego no fogo que nos refinará - e tornarmo-nos tão vítimas do laranja como foi Van Gogh em seu ápice da loucura. A beleza raramente é suave e pura, ela geralmente nos assusta. Por isso a ideia de estraçalhar a estrutura dos egos mortais é, nas mentes mais evoluídas, tão sublime. O ser em sua plenitude, a libertação do habitual: viver por completo, sem as limitações da moralidade. Rasgar o véu e olhar direto para a beleza nua e terrível? Nos sujeitar a sermos nós mesmos até um nível insuportável? Usar do poder das fúrias ao levar as pessoas à loucura, aumentando o volume do monólogo interior e ampliando as características inatas ao exagero? Parece assustador, mas isso não é exatamente do que a beleza se trata?
A beleza, veja bem, quase nunca está associada à simplicidade das limitações rotineiras. O belo é insólito - a verdadeira beleza é o que julgamos ser tão extraordinário a ponto de nos causar arrepios. O que nos causa horror é também a forma mais aguda de felicidade - os dois andam lado a lado, o que os difere são as circunstâncias que os envolvem.
A loucura do nosso ser nos aguarda silenciosamente, até o dia em que procuremos chamar por ela. Como as Mênades, com suas cabeças viradas para trás, os cabelos deslizando pelo chão – mais que humanas – em sua personificação de loucura: Consumidas durante o transe em suas danças sanguinárias, as gargantas gritantes voltadas para as estrelas; Devoradas, descarnadas – e depois devolvidas em sua purificação. O ápice da loucura presenciado e redobrado, morte-renascimento, o contato mais improvável com o próprio eu.
O âmago da nossa própria insanidade talvez permaneça nas páginas antigas da mitologia até que a percepção daquilo que se esconde em nossa obscuridade seja aguçada - e adociada. Se olharmos para dentro de nós mesmos, veremos que a loucura é uma das várias representações da beleza. Pintemo-nos de laranja, então: adotemos a cor da insanidade – e banhemo-nos dos desvarios que moram dentro de nós.



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Coca-cola


 Há tantas coisas a serem ditas. E tantas palavras, meu deus, que permanecerão enterradas - até que tomemos coragem ou criemos a percepção de que não há nada que se fazer se não dizê-las! Há tantas coisas, sim, coisas que não ouso imaginar, mas que estão apenas esperando o entreabrir dos lábios, prontas para serem declamadas aos quatro ventos. Tenho tudo, confesso: tenho tudo para falar, mas não me resta voz. Como disse uma vez certa poetisa: há o direito ao grito – então eu grito. Gritei, gritei alto de mais, e não me resta nada além de um sussurro pobre e rouco. Quando o cansaço da alma se impõe, o que remanesce? Um corpo que se esvai com o menor dos esforços.
Desculpe-me, eu peço, desculpe-me, uma vez que não direi o que precisa ser dito. Se fizesse, afirmo, se fizesse me esvairia – o vento me sopraria para longe - e talvez, como supôs um dia desses, o mar me engoliria. Não quero ser engolida pelo mar, e não quero, também, ser engolida por você e sua ânsia de mim – ou do que quer que seja. Permanecemos por muito tempo em algo que até hoje não entendemos, e cansei, amor, amigo – cansei de tamanha prolixidade, contradição, vagareza – e cansei, ressalto, de sua esquizofrenia e abusividade. Quando disse-lhe, certa vez, que um dia seria tarde: respondeu-me que tarde – coitada de mim – já era.  Entenda que tarde é agora, tarde é hoje, tarde foi ontem – tão tarde, meu amor, que o café já esfriou.
Aquela caixinha de vidro que eu me guardei por tanto tempo já não existe - você a quebrou, jogando-a no chão em uma de suas tão características oscilações de humor. Me libertei, e o mundo que eu não conhecia me encantou – tanto que meu coração maltratado já não está tão maltratado, as lágrimas secaram, e meus sorrisos, ah! Tão mais leves e despreocupados.
Eu joguei aquele café frio fora, eu o vi descendo pelo ralo, já pegajoso e esquecido – e depois, joguei a xícara antiga no lixo, sim, me desculpe por isso também. Acredito que se já não esperava muita coisa, não irá decepcionar-se: Melhor que um café fumegante, só uma coca-cola gelada.
Eu sei e você sabe que o que eu fiz não foi pouco – como o Dick Vigarista gritando para o Mutley fazer alguma coisa, havia uma menininha apaixonada que exigia uma resposta, uma segurança, mas que só recebeu vagareza, enrolação, nada, nada, nada. Por tanto tempo nada, por tantos dias nada – e quando o que era nada transformou-se em alguma coisa, você sugou o pouco que havia e, novamente, não me restava nada.
Desisto, meu bem. Talvez seja mais produtivo perseguir pombos em praça pública, arrotar o alfabeto, abraçar uma árvore – só não vale a pena continuar a insistir em algo que, convenhamos, nunca vai mudar. Estamos atravancados no chão: nós dois, juntos, não iremos a lugar algum. Pode ser que ao dermos a última palavra, encontremos na virada da esquina a peça-chave e fundamental do quebra-cabeça da nossa vida. Porque não?
Dessa vez o destino me presenteou. Aquelas coisas a serem ditas: desconsidere! Sou tão covarde que nem se tivesse voz falaria alguma coisa. Mas que você, com sua alma de poeta, consiga decifrar o que minhas palavras-mudas gritam tão estrondosamente: Você, meu amor, me foi muita coisa boa, sim, não minto. Agora é hora de seguir em frente – o café esfriou, meu bem. Reitero aqui: Joguei-o pelo ralo - me desculpe.
De mim e da minha loucura, permaneço intacta. Agora, em minha ânsia de menina-mulher, em minha vida que um dia já fora tão sua - o que me resta, o que me eclodiu: uma coca-cola gelada.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Pantera, jazz e rock and roll



Entender é para aqueles que são fortes. Eu, de tão fraca e pequena, não entendo. E nem quero! Pode ficar pra você, meu amor, com esse seu jeito esquizofrênico – roube para você a compreensão, você que de fraqueza, creio eu, não se satisfaz. Já roubou minha vida e minhas palavras e ainda, um dia atrás, roubou-me o sossego – porque quando estava sentada na grama, apareceu-me entre as árvores pedindo um isqueiro e um cigarro: descarado! É ladrão, o ladrão da minha paz, pois quando olhei para o lado ela havia sumido – caminhava junto a ti de mãos dadas.
Encontro-me agora – pobre de mim – no nada, e eis que aqui nada se encontra. É que não existo, e não existiria se quisesse; dispenso pensamentos dispensáveis, mas não dispenso pessoas dispensáveis... Sou fraca, sou pequena – e não me julgo capaz. E quão dispensável você é, meu amor! Tão dispensável que não entendo porque nos estendemos tanto e por tanto tempo. Ou entendo – quanta contradição! – pois submissa antes era, sim, quando me vestia de ingenuidade... Mas agora, ah! Sou pantera, jazz e rock and roll - Deixei de lado a minha condição de menina. Você me vê maluca, é que a minha alma cresceu: Grandes antes eram as minhas limitações. Limitações estas que ficaram para trás, junto com a minha submissão doentia.
Lide com isso enquanto eu te observo de longe: Como você foi parar aí? Pouco me importa, na verdade. O meu Maverick amarelo está engatado, meus pulmões respiram Breed no último volume e eu estou partindo. Prometo evitar ciclos excessivos de você. Não quero mais ser alvo de sua pobre esquizofrenia – de tamanha loucura, já basta a minha própria. Eu vou embora, vou sim – estou assumindo o que você, coitado, nunca fez. Sempre que pega o ônibus, desce no ponto seguinte só para voltar a pé! E acrescento aqui que levarei comigo minhas lembranças, meu cheiro e meu co-ra-ção. Pois que não será preciso – e nem quero! - futuras intervenções de restos deixados para trás.
Você, assim tão você, você até demais - vai ficar por aí mesmo, eu sei. Pois fique! Ou vá embora também; mas que faça jus de suas palavras. E então, quando estiver indo embora de vez, quando realmente for embora, faça-me uma surpresa, uma grande surpresa, meu querido, e me entregue este presente embrulhado numa folha velha de jornal: não volte.
A compreensão é a filha dos fortes. Sejamos fortes, então.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Myopia


Era míope: não enxergava a realidade a um palmo de distância. Encarava as caras amarradas das pessoas no ponto de ônibus e só via apatia – não imaginaria, em sua santa inocência, a sujeira acumulada nos pensamentos dos corpos à sua volta. E nem queria: deixava, propositalmente, os óculos que tanto odiava jogados no fundo da bolsa.
Era míope e não enxergava o amor que pairava ao seu lado na avenida movimentada. Presa em sua pressa ilimitada, já depois de pegar o ônibus lotado, caminhava de pés descalços por entre o aglomerado de pessoas atrasadas, olhando de si para si mesma. Não avistara o par de olhos que a observavam – não avistara, em sua ânsia de myopia, o que lhe fora prescrito pela vida.
Era míope, coitada, e não era capaz de viver. Preferia deixar os óculos no fundo da bolsa ao enxergar a realidade, aquela realidade grotesca que fumava um cigarro à sua direita, tentando lhe chamar a atenção. Não – continuava andando todos os dias apressada, ignorando a rua de vida que estendia-se à sua frente, a fim de desfazer-se sem compromisso do que chamava de destino.
De sua visão prolixa e bagunçada: eis que agora, num domingo estarrecido, na madrugada que não a deixa dormir - ela caminha em silêncio pelo quarto cor-de-rosa, com os óculos de lentes grossas em seu rosto pequeno e magro. É doida: ela enxerga por si só e quando lhe convém.
"É que aqui, em meu quarto desarrumado" - apronta-se a dizer, a voz fina arranhando a noite silenciosa - "Aqui tudo é o que é – e nada é de verdade".


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Fique bem.



"Para Alef Francesco, 
que está comigo em
todos os momentos.
Sempre."


Vestido florido, sapatilha de lacinho e aquele cheiro Deep Blue – ela flutua bailarinando pelas calçadas da vida.
Agora, às 03:47 da madrugada, encontro-me jogado no sofá antigo e que me causa tanta dor nas costas, com um cigarro entre os dedos, um copo de whisky na mão e Radiohead em sua versão mais depressiva ecoando pela sala escura e mal cheirosa. E a culpa é sua - é que você é esse tipo de menina-mulher que entra na vida das pessoas com um jeitinho babaca e charmoso e meigo e fofo de ser.
Sabe o que é? Por todo esse tempo, vivi guardando essa coisa que você pode chamar de amor aqui dentro, bem escondida, pra que nenhuma menininha como você pudesse encontrar. Ah, mas você, como se não quisesse nada e com a destreza de pantera tão característica de ti, me invadiu, pegou tudo o que me restava e guardou na mesma caixinha de veludo que esconde sua coleção de corações-partidos. Roubou-me tudo e não me deixou nada além de uma vontade tremenda, enorme, desmesurada de você.
Egoísta. Você acha certo sumir assim? Me deixar plantado nesse sofá velho, enchendo-me de álcool e nicotina, esperando por um telefonema, um telegrama, um alô, um “voltei”? Me invade a imagem de você abrindo a porta da sala - toda delicada, toda bonequinha – e dizendo que só foi dar uma volta, que não queria ter falado aquelas coisas todas, que não iria me abandonar de verdade. Então o ambiente ficaria mais quente e mais iluminado com a sua presença, e a tua silhueta bem desenhada seria a única coisa que meus olhos enxergariam... Pois é, ainda te vejo chegando em casa depois do trabalho e jogando as sapatilhas coloridas no chão, colocando um moletom velho e se esparramando na poltrona com seu livro preferido e uma xícara de chocolate quente. Ainda te vejo acordando todos os dias ao meu lado e fazendo do meu braço o seu travesseiro, ainda vejo a luz perolada que exalava do seu rosto bem desenhado quando você aparecia do nada e sorria para mim. Ainda te sinto aqui, agora, bem pertinho de mim, dando sua risada bonitinha e medonha enquanto eu me recordo de tudo isso. 
Sabe, eu não acreditava que o seu desleixo e desatenção pudessem chegar ao ponto de me esquecer, de me deixar na mão de quem quer que fosse, de sair de malas prontas sem dar tchau. Nem que um dia você não estaria deitada no meio das minhas coisas, que não acordaria descabelada vestindo somente a minha camisa de flanela tamanho G, que um dia você deixaria de derramar café nos meus lençóis limpos e amassados. Sei lá, talvez a culpa não seja inteiramente sua. Talvez a culpa seja minha por ter sido tão ingênuo. Eu errei em ter te colocado no pedestal da minha vida. Você errou em não ter permanecido por lá.
Como a gente faz pra dizer a alguém muito especial: Não me abandone, volte pra mim, fique o quanto quiser, preciso imensamente de vo-cê? Provavelmente você já está longe, dirigindo seu Maverick amarelo, com um braço pra fora da janela e o outro descansando no volante, os olhos verdes no horizonte, os cabelos que você tanto cuida ao vento, descabelados, sem preocupações, como você. Talvez já esteja ouvindo sua rádio preferida enquanto dirige sossegada, talvez seus lábios de rubi estejam cantando Smells like teen spirit enquanto eu trago meu último cigarro, com meu copo de whisky barato já pela metade e o vestido que eu te dei e que você deixou pra trás nas mãos.
Você partiu. Você partiu e já cativa outros olhares em outros lugares, enquanto eu continuo aqui, no mesmo sofá, pensando em como você foi tanto, é tanto e continuará sendo. Só agora entendo que tudo isso fazia parte do seu plano de se ver livre e feliz, de voar pelo céu azul do mundo e sobrevoar a vida, sendo guiada somente pelo vento harmonioso que balança seus cabelos e não a deixa aterrissar. Seu plano de gente, seu plano de espírito, seu plano de mim – o mesmo que você anotou no seu bloquinho cor-de-rosa e que guardou na sua penteadeira bagunçada, no meio das suas muitas maquiagens - como uma meta a cumprir. Talvez você não esteja dirigindo seu Maverick amarelo, mas esteja voando por sobre as casas, as árvores, as pessoas, por sobre mim. Quem sabe? Não se sabe. 
É verdade que você me deixou e não foi por culpa do destino, nem do tempo, nem de Deus: Foi você, com seu coração de gelo e jeitinho de princesa, que pensava no seu plano de voo enquanto eu só pensava em ti.
Você mudou a minha vida, você mudou cada segundo e milímetro e pedaço da minha triste vida, mas eu não mudei nem uma palha da sua, porque tudo em você é tão maior e tão melhor e tão mais bonito do que eu. Você foi tudo, você sempre foi tudo, mas eu não fui nada, nem incômodo eu causei. É que você foi como um dilúvio na minha vida e eu fui só uma garoa fraca na sua. Contradição: É muito tudo pra muito nada. Você me entende?
Ao menos leve em conta o meu tempo desperdiçado e faça uma coisa por mim: Fique bem. Não precisa voltar e me dar mais uma pitada de carinho, como se eu fosse um cachorro faminto te esperando na esquina, atento aos seus passos, sedento de sua atenção. Não, não volte: fique por aí. Viva, ria, voe. Voe o máximo que você puder. Viva tudo o que tem para viver. Cative outros corações, arranque outros sorrisos, outros suspiros, outros olhares. Você sabe que é ótima nisso. Eu vou ficar bem. Eu estava bem antes de te conhecer e vou ficar bem agora que você foi embora. Não precisa me devolver o casaco que ficou com você naquela noite fria: Fica. Guarde o meu casaco, guarde meu cheiro, guarde minhas recordações, guarde meu toque, meu abraço, meu beijo, guarde meu co-ra-ção. Eu vou continuar por aqui mesmo, bebendo meu whisky, fumando meu Marlboro e lembrando de você, que me abandonou: você: louca varrida, doida de pedra, coração de gelo, meu amor.
Eu vou cuidar de mim. Só me faça um último favor: Cuide de você também.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Os fins e afins de uma segunda-feira chuvosa



“Uma mulher num corpo de menina, e vice-versa” – Lembro-me até hoje das palavras que usara para me descrever, enquanto nos despedíamos envoltos em blusas e cachecóis, naquela manhã fria e chuvosa de segunda-feira, em frente ao táxi impaciente. Dois corpos fugitivos, dois corpos que se conheciam tão bem e que, beirando a avenida sem vida na grande São Paulo, exatamente às 07:15, abrigavam duas almas prolixas, duas mentes insanas, dois corações perturbados, dois seres que enfim se despediam. Aquela segunda-feira, penso eu, fora característica: o tempo e as circunstâncias casaram e formaram uma aliança chuvosa, fria e lúgubre. No entanto estávamos ali, depois de passarmos naquele café desabitado minutos que pareceram horas, fazendo juras que nunca iríamos cumprir, tentando nos firmar na corda bamba. É verdade, afinal, que coisas boas não acontecem em segundas-feiras chuvosas, não é?
A gente se encontrou e era segunda-feira. Lembro que sentamos no banco frio daquele café quase abandonado, onde as únicas pessoas eram você e eu, eu e você, nós dois - loucos agasalhados que marcaram um encontro para traçarem as linhas de suas vidas desequilibradas. Pedimos dois cafés amargos. Você fez uma careta quando queimou a língua, enquanto eu fiz uma careta quando senti o gosto ruim. A gente se completava de jeitos diferentes, sim, éramos quase ideais. Lembro que você me falou coisas bonitas e feias também, e eu, em minha pusilanimidade bem disfarçada, apenas permaneci calada, fazendo-me displicente, ouvindo suas palavras ecoarem e somente prestando atenção em seus lábios, aqueles malditos lábios, os mesmos que já me beijaram, e que já me calaram, e que já me falaram mal.
Você deu risada quando o rádio pequeno e antigo tocou aquela música, justo aquela. Grande coincidência, eu pensei. Ou seria uma piada de mau gosto do Sr. Destino? Trocamos olhares rápidos, talvez por vergonha, talvez medo do que estava por vir. Só agora percebo que aquela segunda-feira fora meticulosamente planejada pela vida, esse embolorado de amores e desamores, a fim de nos fazer encarar o que insistíamos em empurrar para um lado escuro de nossa alma. O dia escolhido, o momento em questão, o péssimo lugar. E, apesar de tudo, estávamos ali, os dois, prontos para o que quer que estivesse para acontecer. Apesar de ser segunda-feira.
E de estar chovendo.
Já repassei aquele dia tantas e tantas vezes em minha cabeça, que devo ter criado falsas lembranças para suprir o que eu queria que tivesse acontecido. Como, por exemplo, o jeito que você me olhava enquanto eu arrumava meu cabelo bagunçado pelo vento, ou o sorriso torto – e que eu tanto gostava – que deu quando eu quase derrubei a xícara de café na mesa, ou o suspiro de tristeza que você soltou quando eu entrei no táxi pela última vez.
“I love the way you love, but I hate the way I'm supposed to love you back” Ecoava, ecoava pelos cantos vazios do café, e a gente lá no meio recebia o acústico quase perfeito. Eu gostaria de ter tido mais tempo para te descobrir, mas tudo sempre é tão breve... Nós fomos muito breves. Queria ter tido tempo para desvendar seus mistérios, seus medos, suas angústias – e quem sabe apará-las todo mês, para que não crescessem demais e te engolissem, como aconteceu. Você era o que era – calmaria, resistência, braços firmes protegendo o coração doído. Sempre com um pé atrás, sempre resistindo, mas quase sem foças para me reter.
A verdade, percebo agora, é que você assistia tudo do lado de fora e se fazia o telespectador. Fingia que não era com você, olhava para o lado, abaixava a cabeça, me dava as costas e sumia entre seus pensamentos mal resolvidos. Fazia tudo e de tudo para fugir - e fugia... Idiotice, mas sinto falta de como você me via tanto e fazia que não via nada, de como me escutava tanto e preferia se fazer de surdo, de como guardava, em algum lugar dentro de você, um pedacinho de mim. Agora eu sei, agora entendo que você não deu conta de mim, você não foi capaz de lidar comigo. Não deu conta e nunca teve saco, nem músculos, nem alma, nem amor e nem coragem suficientes para me reter, para nos reter.
Lembro-me que tomamos nossos cafés em silêncio, depois de uma conversa pobre de alguns poucos minutos. Nós dois já sabíamos o que iria acontecer, e não precisamos colocar em palavras o que já estava prescrito. Encaramo-nos, nos levantamos e de repente já estávamos na avenida sem vida, tremendo sob as várias camadas de blusas e cachecóis, respirando o ar úmido e congelante daquela bendita segunda-feira, às 07:15 da manhã.
“Uma mulher num corpo de menina, e vice-versa” – sua voz grave me soprou as palavras numa calmaria que só mesmo você é capaz de ter. Sorri, e no momento seguinte, já estava dentro do táxi que você insistiu em pagar.
Aquela foi a última vez que te vi. E as minhas segundas-feiras nunca mais foram as mesmas.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Retrato de outrem

Não estava tão distante assim para que não pudessem vê-lo, nem encontrava-se tão indiferente para que não pudessem senti-lo. Não falava muito; e seus passos, sempre apressados, sempre fugitivos, sempre os mesmos: revestiam-se de eterno devaneio. Também não costumava sorrir – achava desnecessário. Entretanto, não era uma pessoa triste, não: Guardava sua felicidade dentro de si, para que não pudessem roubá-la. Seguia relativamente feliz, vivendo seus dias longos e chatos com um uma mescla quase insignificante de otimismo. Mas também era rancoroso – culpava as pessoas, o tempo, o destino – Só não culpava a si mesmo. Disfarçava sua tristeza em arrogância – de cabeça erguida, contornava os muros da cidade como quem não via nada, nem sentia. Caminhava, caminhava somente, e não via – ou não queria enxergar – para onde ia. Prolixidade - era o que era - prolixidade e contradição. Acabou perdendo-se entre as ruas tristes e escuras da melancolia. E, enquanto fingia que sabia o que era ou o que queria, tornou-se prisioneiro de sua própria ilusão.
Sorte que resguardava ainda, em algum lugar dentro de si, sua intocada felicidade.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Preguiça

Não sinto pressa em viver.
Pelo contrário – vivo preguiçosamente
E o tempo quase não passa...
O vento é que o empurra!
Se não, viveria o mesmo momento para sempre.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Os zumbis da cidade grande

Na sociedade atual, o capitalismo insiste em alimentar as veias da humanidade com suas tristes características. Entre elas, o consumismo desenfreado - a razão pela qual as lojas vivem apinhadas de "zumbis", que ao invés de alimentar-se da carne humana, alimentam-se das mais novas tecnologias. São os "zumbis da cidade grande".
Para essa parcela da população - que, aliás, não é pequena - o materialismo é sinônimo de status em meio à sociedade. Quanto mais lixo, maior o status. Apesar do visível antagonismo, as casas continuam se enchendo de porcaria - e as corporações, de dinheiro.
Com a necessidade de status somada ao notório egoísmo do mundo atual, o resultado não poderia ser diferente. Criou-se uma nação de compradores e vendedores, no qual de um lado temos a relação "imagem versus consumismo" e de outro temos "imagem versus capital". Assim, o altruísmo - que deveria ser uma tendência de natureza instintiva - acabou sendo ofuscado pelos princípios de uma sociedade capitalista e imediatista, e tornando-se um ato extremamente raro - e nada instintivo. As pessoas pensam duas vezes antes de dar dinheiro a um mendigo, por achar que este irá gastá-lo com bebida alcoólica. Por outro lado, sorriem ao dar dinheiro no farol para os "bixos universitários", mesmo sabendo que o destino desse, certamente, também será o álcool. Esse é o exemplo perfeito de como uma das prioridades atuais é a imagem - para que dar dinheiro à um mendigo que vive nas ruas, quando podemos dar esse dinheiro à um bando de universitários que têm o futuro certo pela frente? Os compradores e vendedores - ou a imagem, o consumismo e a capital - são o resumo da nossa sociedade.
Em "A arte da vida", Lipovetsky declarou que "a cultura do sacrifício está morta", mas alguma vez a mesma já esteve viva? O altruísmo, infelizmente, foi ofuscado pelos princípios fúteis da humanidade há muito tempo. E continuará assim até que um motivo forte o bastante seja capaz de abrir os olhos desses zumbis da cidade grande para um mundo mais altruísta e, consequentemente, menos egoísta.

terça-feira, 8 de maio de 2012

sexta-feira, 2 de março de 2012

O anjo mascarado

Você, que vejo cantando derrotas aos quatro ventos, bebendo um café infeliz, totalmente alheio ao murmurar das gentes. Tem sempre a mesma cara, e nutre os mesmos sentimentos, e chora sempre as mesmas dores, projetando uma sombra absurda aos seus pés - e que insiste em te seguir ao menos enquanto houver luz para alimentá-la. Sorri amargamente, pensando que de sua vida só lhe restam desgraças de quem te desmereceu, depois de merecer e antes de fugir. Também o olhar apagado já não registra bons momentos, e só vê o que quer enxergar, assim como a mente descontrolada só acredita no que quer acreditar - em sua própria verdade. Você grita suas desilusões, e retém seus rancores, e nesse caminho estragado alimentou o coração orgulhoso de ira, acorrentando-o contra os braços e mantendo-o fora de alcance, para que não pudessem mais invadi-lo. Você, que rasga a carne do amor com os dentes e cospe os restos aos bueiros imundos da cidade, e que vive um sonho amargurado, suando para chegar ao topo - que na verdade já está ocupado... Anjo mascarado, esconde a verdadeira face, e anda sempre amedrontado! Com suas pernas trêmulas e suas mãos nervosas, e seu riso exagerado, descontrolado, beirando à loucura. Se esconde por trás dos muros para que não o vejam despir a máscara e respirar finalmente. Sempre o mesmo em sua ousada decadência! Não terá, se vasculhar o âmago de sua alma, um fragmento de amor? Para que possa despir o que te enconde e mostrar-se quem verdadeiramente é à luz do dia? Se sentiria mais leve, libertado, e caminharia desleixado pelas ruas de sua terra, amando apenas - e deixando ser amado. 
Anjo mascarado, dessa vida efêmera não levamos quase nada! Talvez um punhado de alguém, um fragmento de luz, uma pitada de sorriso, algumas recordações, umas dezenas de lágrimas. E não sabemos a hora que nos será tirado o direito de viver. Pode ser que viva cem anos deitado em uma cama, apenas coçando a cabeça e se levantando para ir ao banheiro ou xingar alguém. Ou pode ser que viva trinta anos correndo para chegar ao outro lado, e pare um minuto para descansar - e neste minuto, a morte imagina que estivesse ali à sua espera, e aparece vestida de cetim, beijando-lhe a boca. 
Vive como o camelo do poema de Cecília: mastigando sua eterna solidão. Mas deveria tomar as lições da aula inaugural de Quintana: Dança, pois, teu desespero, dança. Tua miséria, teus arrebatamentos, teus júbilos. E mesmo que temas imensamente a Deus, dança como David diante da Arca da Aliança, e mesmo que temas imensamente a morte, dança diante da tua cova. 
Aceita então o meu conselho, e conseguirá dormir à noite sem temer as derrotas do dia seguinte. Não tenho, pois, nada mais a lhe dizer. Pode agora mesmo pegar um ônibus sem destino e se perder nas frestas escuras desse mundo louco, pode cavar um buraco no chão com as próprias unhas para esconder-se daqueles que te sorriram. Pode costurar suas asas quebradas e tentar um voo para onde meus olhos não possam ver, pode até despir a máscara que te esconde a verdadeira face - ou pode continuar com ela pelo resto de seus dias amargos. Pode ir, pode ficar, pode sumir - Só não grita ao meu ouvido! Que de suas palavras ensaiadas eles já estão cansados. 




Conselho

Recomponha-te
Liberta-te
Fala-te
A si mesmo
A verdade sobre
Ti.

Jura-te
Cumpra-te
Prometa-te
A tua verdade,
Que é para
Confiar em
Ti.

Amadureça-te
Explora-te
Conheça-te
E mergulhe em teu
Âmago
Para não mais perder-se de
Ti.

Perdoa-te
Por fim
E faze as pazes contigo,
Para que não te esqueças
De que vives para ti
E somente para
Ti.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Catástrofe

Sou a paz que antecede uma tempestade. Sou o nada que caminha sem rumo por estradas infinitas, esperando encontrar o que não sei se existe. Pressinto o caos que paira sobre mim, esperando apenas por um espirro para desmoronar. E espirro, e sinto a catástrofe, e enfrento-a. Pois enquanto não houver uma tempestade, o medo se alastrará. Mas o mesmo se esvai com a calmaria que vem depois...


Um homem, um banco e um guarda-chuva

Foi ali que eu o vi pela primeira vez, sentado no banco da praça, de pernas cruzadas e olhar distante. Uma figura alta e pálida, de mãos nervosas e pernas trêmulas - cabisbaixo, frívolo. Não se destacaria em um grupo de pessoas, não se destacaria nem se andasse com uma melancia na cabeça. Entretanto, conseguiu me chamar a atenção.
Da janela do terceiro andar de um condomínio sem graça, observo aquele rapaz tristonho sentar-se todos os dias na mesma posição e fixar os olhos mortos em algum lugar que só ele é capaz de ver. E passa horas a não fazer nada, apenas tornando-se parte do cenário da praça como uma figura sem importância. Às seis da tarde, ele olha para o céu, como que esperando um milagre. Depois levanta-se, pega o guarda-chuva que sempre carrega consigo, e desata a andar em passos largos e apressados, desaparecendo na multidão.
E todos os dias, o jovem magricela fazia a mesma coisa. Chegava, sentava-se no banco, passava horas emudecido, depois olhava para o céu, se levantava e ia embora. Muitas vezes pensei em cumprimentá-lo, perguntar seu nome, o que fazia da vida, ou até mesmo o que fazia ali, naquele banco. Mas sempre alguma coisa me impedia - não sei se por vergonha ou covardia, nunca arrisquei puxar conversa com aquele rapaz.
Um dia, o rapaz misterioso não apareceu no banco. Nem no dia seguinte. Nem no outro, nem no outro, nem no outro. Agora, eu já não mais o via sentado com olhar distante, nem às seis horas da tarde pegar seu guarda-chuva e ir embora. Agora, nada mais restava que um banco de concreto vazio. Tão vazio, tão abandonado, tão indiferente...
Certo dia, ao passar pelo banco da praça, lembrei daquela triste figura. Já não o via à meses, e não pude evitar sentir um lampejo de aflição. Sem pensar direito, resolvi sentar-me no banco. Cruzei as pernas, e observei a praça à minha volta. Crianças brincavam, pessoas passeavam com seus cachorros, carrinhos de sorvete tiniam musiquinhas. E passei um bom tempo ali, parada, absorvendo energias positivas. Às seis horas, olhei para o céu. "Já vai escurecer" eu pensei.
Então, peguei meu casaco, levantei-me e fui embora. E esperei o dia seguinte, para que pudesse fazer tudo de novo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Nós

E avisto, meio grogue, meio zen, aquela figura que me aflige, que me espanta e me faz bem. Me olha com seu olhar decidido, me arranca um suspiro, me fere com um sorriso zombeteiro, e canta ao infinito seu poder sobre mim. Não me tens em suas mãos, nem mesmo em seu coração, pois já que me acostumei com sua ausência e arrogância. Contudo, consegue me tirar o fôlego com suas poses ensaiadas, seus pensamentos ignorantes e seu sentimentalismo infantil. E perco, e cedo à ele, e volto atrás no instante seguinte, quando já me foi propiciado faíscas daquele amor louco. Amor não, amor não - não queremos que essa palavra especial dê nome à um embolorado de hipocrisia e enrolação. Carinho, talvez. Atração, com certeza. Nem mais, nem menos - no ponto: Nada muito especial. É o que somos, afinal - Uma bagunça feia, desajeitada e irreal. Nem um, nem outro, mas os dois! Presos em um sentimento falso, sem saber se nos entregamos ou se nos ignoramos, sem saber se avançamos ou se estacamos e permanecemos assim, do jeito que está. Um pé aqui, outro lá - sempre invadindo o território um do outro. E sem saber porquê, empinamos nossos narizes para ignorarmos os erros esparramados aos nossos pés. O orgulho nos mata, e não sentimos, pois já estamos mortos. E nem ligamos! Nem ligamos, pois que o sofrimento do outro nos dá a vida que precisamos. E assim, nos alimentamos da lágrima, do arrependimento, da falsidade - E nos mantemos vivos por fora, enquanto apodrecemos por dentro.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Uma noite Cecília

E devoro a minha alma enquanto mergulho nas palavras de Cecília Meireles, na solidão de uma noite sem fim, e que no entanto já está quase no fim. "Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acaba todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer. E então serás eterno." 
O medo do fim. - Que será o fim? - Eu penso, enquanto acendo um cigarro. Dou a primeira tragada com força, sugando a fumaça densa para os meus pulmões escuros. Depois a solto, e ela sobe leve, mansa, com sua branquidão quase transparente. - Que será o fim? - Penso. E então dispenso. Dispenso o ato de pensar - e aí está o fim de um pensamento. Mas não é um fim, pois logo disparo a pensar novamente. E quando a gente sabe que alguma coisa realmente chegou ao fim? Ela pode retomar de onde parou a qualquer momento. Como o meu pensamento, como alguém que saiu de sua vida para nunca mais voltar, mas que você encontra num dia chuvoso na esquina de um bar. Como um Adeus que não é pra sempre, ou a morte de um sentimento que na verdade nunca te abandona. O fim só é fim quando não se é esperado. 
"... Eu te esperei todos os séculos, sem desespero e sem desgosto, e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto..." A cinza do cigarro está comprida, e já não me resta nada além de uma última tragada. Fecho os olhos por um instante, não tentando imaginar nada, mas tentando me posicionar. No mundo, talvez. Em mim mesma? Não sei. Mas permaneço de olhos fechados, imóvel na sala escura e vazia. Sempre o mesmo rosto. E ele aparece abruptamente, como se tivesse escutado seu nome. Não tento afastar sua imagem, pois apesar daqueles traços me causarem desconforto, é um desconforto que me conforta. Eu te esperei todos os séculos. E continuo esperando, eu penso. Sentada aqui e agora, espero um telefonema, um telegrama, uma carta, um alô, um Adeus, um abraço, um beijo. Espero, e espero, e continuo esperando o dia em que o fim retome de onde parou com letra maiúscula. E então escreva mais um parágrafo. Grande, de preferência.
"Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica os teus braços, para semeares tudo. Destrói os olhos que tiverem visto. Cria outros, para as visões novas. Destrói os braços que tiverem semeado, Para se esquecerem de colher. Sê sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre longe. E dentro de tudo." Quero um café. Então me lembro da xícara que havia esquecido ao meu lado, em cima de uma montanha de livros. Tomo um gole, faço uma careta - Café frio e amargo. É o que se resume tudo isso, na verdade: A frieza e o amargor, unidos, cercando toda uma vida vazia. "De longe te hei de amar, - da tranquila distância em que o amor é saudade e o desejo, constância." Está do outro lado da rua, e no entanto é como se estivesse no outro lado do mundo. Queria eu poder atravessar a rua, pegar tua mão e caminhar até onde nossos olhos não podem ver. Queria eu poder amar-te não de longe, nem de perto, mas de todo. "Quero uma solidão, quero um silêncio, uma noite de abismo e a alma inconsútil, para esquecer que vivo, libertar-me das paredes, de tudo que aprisiona; atravessar demoras, vencer tempos pululantes de enredos e tropeços, quebrar limites, extinguir murmúrios, deixar cair as frívolas colunas de alegorias vagamente erguidas. Ser tua sombra, tua sombra, apenas, e estar vendo e sonhando à tua sombra a existência do amor ressuscitada. Falar contigo pelo deserto." Chove lá fora, e não havia percebido. Ultimamente vivo como quem não vive, e me disperso, e me deixo levar. Estou à mercê da vida, e subsisto conforme os dias, atravessando os séculos sem nem me dar conta. Esta noite em si é pura, como no poema de Cecília - Solitária, silenciosa. E quase esqueci que vivo, e quase me torno liberta. Mas o que me aprisiona é aquele pelo qual eu viraria sombra. É aquele pelo qual eu amaria de longe. É aquele pelo qual eu renasceria em mim mesma. É aquele pelo qual eu esperei todos os séculos. E é aquele que me empurra o medo do fim goela abaixo, pois ele é o fim em questão. 
Eu morri de amor e nem havia me dado conta!





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Epifanias de outrora

No teu olhar obscuro, encontro uma faísca de luz. 
E me ilumina, e me compreende, e me quer bem. 
Me arrasta, e me controla, e me arranca as forças enquanto me examina. 
E me corrige, me observa, e lê a minha alma prolixa e bagunçada, 
Para então lavar as impurezas acumuladas nos cantos de um amor fugaz. 
Me encara, me tira o fôlego, me deixa sem graça e não se julga culpado. 
Me fala, me cala, me deixa, e some. 
Some tão veloz que não me deixa ver, 
Some tão veloz que não me deixa sentir,
E suga consigo as breves epifanias de outrora. 

Na sua ausência me rouba a luz; 
Na minha ausência me deixa no escuro.
Mas me observa escondido na essência das trevas, 
Esperando o momento em que faíscas de luz em seu olhar obscuro
poderão me encontrar outra vez, 
E me iluminar, e me compreender, e me querer bem.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Insano amor

Jazia morto, envolto em neve e desilusão. E os dias velhos, velhos dias, aqueles repletos de sorrisos e abraços, são dias que não voltam mais! Escurecia o céu, emudecia a noite, e permanecia o cadáver de olhos vidrados - Sem vida, sem cor, sem nada. O silêncio trazia uma paz pérfida, a máscara do caos, e o sangue vermelho coloria a brancura da neve - vermelho morte, o sorriso do fim. Oh, se fosse possível escolher viver quando já não há vida! Se fosse possível amar onde já não se há amor! E respirar quando já não existe ar! Então escolheria viver por ti, e nessa vida escolheria amar-te, e amando suspiraria ao te ver passar. E talvez não estivesse estirado diante de mim, como um pedaço de carne humana - pobre criatura! Não teve oportunidade de viver por mim, mas teve a oportunidade de morrer por mim. Grande prova de carinho, eu diria, se não tivessem as minhas mãos contribuído para tal tragédia. Tragédia? Não chamo de tragédia o que estava escrito para acontecer. Pois o destino, ah! O destino não erra. Morreríamos juntos como um só coração no livro da vida, então morreremos juntos nas terras molhadas do Adeus...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Endrôminas

E me foram jogadas na cara endrôminas de uma língua afiada. Acreditei, e em toda a minha ingenuidade, me deixei levar. Aquele, escondido por trás de seu falso sentimentalismo, tornou-se o motivo de meu escárnio, e ainda assim continuou com suas artimanhas - o olhar apagado e que tanto me seduz, a risada bizarra e que tanto me tira o fôlego, as palavras falsas e que tanto me enganam, aquela postura decidida, culta, engenhosa e meticulosamente elaborada para chamar a minha atenção. Encara-me com um cigarro na boca e uma mão na cintura, e se permite um sorriso sarcástico. Me aborrece tudo: odeio o seu cabelo bagunçado, odeio seus óculos enormes, odeio o sapato que calça, o perfume que usa, o modo como cruza as pernas e como traga o cigarro: Odeio tudo. E no entanto, não odeio nada. Amo cada centímetro de seu corpo, e cada atitude que lhe é tomada: Desde o cabelo mal penteado, até o jeito como puxa a fumaça densa para os pulmões escuros - me encanta, me chateia. Me encanta o fato de ser tão erroneamente ideal. Me chateia o fato de me atrair exatamente o que é erroneamente ideal.
Mas me foram jogadas na cara endrôminas de uma língua afiada. Em minha cegueira, fui guiada apenas pelo conjunto de palavras pérfidas que me foram sopradas. E até que a luz proditória revelasse a hipocrisia que se escondia nas frestas de um falso sentimento, permaneci no negrume do meu interior - vivendo sob a farsa de um ser quase-perfeito. Eu o encaro de volta, e sinto o coração saltar no peito - o nervosismo único de se poder olhar nos olhos do motivo de sua angústia. Eu o odeio! Odeio tanto que quero beijá-lo, quero abraçá-lo, quero segurar sua mão e permanecer ao seu lado até que meus olhos se fechem para o sono profundo. Mas permaneço parada, dura como pedra, tomando o cuidado de não demonstrar qualquer emoção se não indiferença. E eis o que aquela figura me traz escondido no meio do seu sorriso sarcástico - a indiferença retomada e redobrada, que me atinge como uma bola de tênis na testa. Ele dá sua última tragada da noite e apaga a bituca do cigarro com a sola daquele sapato que eu tanto odeio, ajeita a camisa branca e vira as costas, dobrando a esquina e desaparecendo de vista. Chorei: Duas lágrimas grossas que não tiveram tempo de rolar por meu rosto, tão apressadas estavam minhas mãos em enxugá-las. E depois sorri: O sorriso mais falso e isento de qualquer emoção se não uma pontada de sofrimento, que logo foi substituída por uma dose forte de raiva. Raiva, ódio, e por último desprezo. Mas que durou apenas algum momento, não mais que uma semana. Foi quando o vi pela segunda vez, encostado num poste de luz, com uma jaqueta de couro e um cigarro na boca. Ele me encara com o mesmo olhar sem vida, e me dá o mesmo sorriso sarcástico. E meu coração, tão acostumado estava diante daquela figura imperfeita, retomou os batimentos fortes e nervosos que guardava para momentos como aquele. Mas me são jogadas na cara endrôminas de uma língua afiada! Eu me dou conta, e me desespero, e repito para mim mesma que aquilo está errado - São mentiras, são balelas! Corra, fuja, ignore, não se deixe levar!
Mas ele, aquela figura que me olha, e me conquista, e que mente, e em seguida some, e volta só pra fazer tudo de novo. Ele, que um dia me fez apaixonar e no outro não me deu notícias, e que nesse momento me olha com a indiferença que eu tanto gostaria de ter, mas que lhe é tão natural: Ele é o errôneo.

Mas é erroneamente ideal para mim.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Filósofos da meia-noite

Filosofias jogadas ao ar em uma avalanche de ideias e pensamentos. Frases feitas e já há muito esquecidas, que foram lidas no canto das páginas de um livro ou pichadas nos muros oriundos de um bairro pobre no centro de São Paulo. Palavras arquivados nas profundezas do pensamento, apenas esperando aquela noite em especial, a noite em que poderiam ser lembradas e citadas para o céu sem estrelas que encobria à todos. Em meio à névoa e à grama úmida, a lua escutava e absorvia os bocados de cultura que insistiam em invadir o escuro como faíscas de fogo, iluminando aqui e ali a cada frase formada, fazendo dos pequenos fragmentos de luz, um espetáculo de fogos de artifício.