Desculpe-me, eu peço, desculpe-me, uma vez que não direi o que precisa ser dito. Se fizesse, afirmo, se fizesse me esvairia – o vento me sopraria para longe - e talvez, como supôs um dia desses, o mar me engoliria. Não quero ser engolida pelo mar, e não quero, também, ser engolida por você e sua ânsia de mim – ou do que quer que seja. Permanecemos por muito tempo em algo que até hoje não entendemos, e cansei, amor, amigo – cansei de tamanha prolixidade, contradição, vagareza – e cansei, ressalto, de sua esquizofrenia e abusividade. Quando disse-lhe, certa vez, que um dia seria tarde: respondeu-me que tarde – coitada de mim – já era. Entenda que tarde é agora, tarde é hoje, tarde foi ontem – tão tarde, meu amor, que o café já esfriou.
Aquela caixinha de vidro que eu me guardei por tanto tempo já não existe - você a quebrou, jogando-a no chão em uma de suas tão características oscilações de humor. Me libertei, e o mundo que eu não conhecia me encantou – tanto que meu coração maltratado já não está tão maltratado, as lágrimas secaram, e meus sorrisos, ah! Tão mais leves e despreocupados.
Eu joguei aquele café frio fora, eu o vi descendo pelo ralo, já pegajoso e esquecido – e depois, joguei a xícara antiga no lixo, sim, me desculpe por isso também. Acredito que se já não esperava muita coisa, não irá decepcionar-se: Melhor que um café fumegante, só uma coca-cola gelada.
Eu sei e você sabe que o que eu fiz não foi pouco – como o Dick Vigarista gritando para o Mutley fazer alguma coisa, havia uma menininha apaixonada que exigia uma resposta, uma segurança, mas que só recebeu vagareza, enrolação, nada, nada, nada. Por tanto tempo nada, por tantos dias nada – e quando o que era nada transformou-se em alguma coisa, você sugou o pouco que havia e, novamente, não me restava nada.
Desisto, meu bem. Talvez seja mais produtivo perseguir pombos em praça pública, arrotar o alfabeto, abraçar uma árvore – só não vale a pena continuar a insistir em algo que, convenhamos, nunca vai mudar. Estamos atravancados no chão: nós dois, juntos, não iremos a lugar algum. Pode ser que ao dermos a última palavra, encontremos na virada da esquina a peça-chave e fundamental do quebra-cabeça da nossa vida. Porque não?
Dessa vez o destino me presenteou. Aquelas coisas a serem ditas: desconsidere! Sou tão covarde que nem se tivesse voz falaria alguma coisa. Mas que você, com sua alma de poeta, consiga decifrar o que minhas palavras-mudas gritam tão estrondosamente: Você, meu amor, me foi muita coisa boa, sim, não minto. Agora é hora de seguir em frente – o café esfriou, meu bem. Reitero aqui: Joguei-o pelo ralo - me desculpe.
De mim e da minha loucura, permaneço intacta. Agora, em minha ânsia de menina-mulher, em minha vida que um dia já fora tão sua - o que me resta, o que me eclodiu: uma coca-cola gelada.

