segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Coca-cola


 Há tantas coisas a serem ditas. E tantas palavras, meu deus, que permanecerão enterradas - até que tomemos coragem ou criemos a percepção de que não há nada que se fazer se não dizê-las! Há tantas coisas, sim, coisas que não ouso imaginar, mas que estão apenas esperando o entreabrir dos lábios, prontas para serem declamadas aos quatro ventos. Tenho tudo, confesso: tenho tudo para falar, mas não me resta voz. Como disse uma vez certa poetisa: há o direito ao grito – então eu grito. Gritei, gritei alto de mais, e não me resta nada além de um sussurro pobre e rouco. Quando o cansaço da alma se impõe, o que remanesce? Um corpo que se esvai com o menor dos esforços.
Desculpe-me, eu peço, desculpe-me, uma vez que não direi o que precisa ser dito. Se fizesse, afirmo, se fizesse me esvairia – o vento me sopraria para longe - e talvez, como supôs um dia desses, o mar me engoliria. Não quero ser engolida pelo mar, e não quero, também, ser engolida por você e sua ânsia de mim – ou do que quer que seja. Permanecemos por muito tempo em algo que até hoje não entendemos, e cansei, amor, amigo – cansei de tamanha prolixidade, contradição, vagareza – e cansei, ressalto, de sua esquizofrenia e abusividade. Quando disse-lhe, certa vez, que um dia seria tarde: respondeu-me que tarde – coitada de mim – já era.  Entenda que tarde é agora, tarde é hoje, tarde foi ontem – tão tarde, meu amor, que o café já esfriou.
Aquela caixinha de vidro que eu me guardei por tanto tempo já não existe - você a quebrou, jogando-a no chão em uma de suas tão características oscilações de humor. Me libertei, e o mundo que eu não conhecia me encantou – tanto que meu coração maltratado já não está tão maltratado, as lágrimas secaram, e meus sorrisos, ah! Tão mais leves e despreocupados.
Eu joguei aquele café frio fora, eu o vi descendo pelo ralo, já pegajoso e esquecido – e depois, joguei a xícara antiga no lixo, sim, me desculpe por isso também. Acredito que se já não esperava muita coisa, não irá decepcionar-se: Melhor que um café fumegante, só uma coca-cola gelada.
Eu sei e você sabe que o que eu fiz não foi pouco – como o Dick Vigarista gritando para o Mutley fazer alguma coisa, havia uma menininha apaixonada que exigia uma resposta, uma segurança, mas que só recebeu vagareza, enrolação, nada, nada, nada. Por tanto tempo nada, por tantos dias nada – e quando o que era nada transformou-se em alguma coisa, você sugou o pouco que havia e, novamente, não me restava nada.
Desisto, meu bem. Talvez seja mais produtivo perseguir pombos em praça pública, arrotar o alfabeto, abraçar uma árvore – só não vale a pena continuar a insistir em algo que, convenhamos, nunca vai mudar. Estamos atravancados no chão: nós dois, juntos, não iremos a lugar algum. Pode ser que ao dermos a última palavra, encontremos na virada da esquina a peça-chave e fundamental do quebra-cabeça da nossa vida. Porque não?
Dessa vez o destino me presenteou. Aquelas coisas a serem ditas: desconsidere! Sou tão covarde que nem se tivesse voz falaria alguma coisa. Mas que você, com sua alma de poeta, consiga decifrar o que minhas palavras-mudas gritam tão estrondosamente: Você, meu amor, me foi muita coisa boa, sim, não minto. Agora é hora de seguir em frente – o café esfriou, meu bem. Reitero aqui: Joguei-o pelo ralo - me desculpe.
De mim e da minha loucura, permaneço intacta. Agora, em minha ânsia de menina-mulher, em minha vida que um dia já fora tão sua - o que me resta, o que me eclodiu: uma coca-cola gelada.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Pantera, jazz e rock and roll



Entender é para aqueles que são fortes. Eu, de tão fraca e pequena, não entendo. E nem quero! Pode ficar pra você, meu amor, com esse seu jeito esquizofrênico – roube para você a compreensão, você que de fraqueza, creio eu, não se satisfaz. Já roubou minha vida e minhas palavras e ainda, um dia atrás, roubou-me o sossego – porque quando estava sentada na grama, apareceu-me entre as árvores pedindo um isqueiro e um cigarro: descarado! É ladrão, o ladrão da minha paz, pois quando olhei para o lado ela havia sumido – caminhava junto a ti de mãos dadas.
Encontro-me agora – pobre de mim – no nada, e eis que aqui nada se encontra. É que não existo, e não existiria se quisesse; dispenso pensamentos dispensáveis, mas não dispenso pessoas dispensáveis... Sou fraca, sou pequena – e não me julgo capaz. E quão dispensável você é, meu amor! Tão dispensável que não entendo porque nos estendemos tanto e por tanto tempo. Ou entendo – quanta contradição! – pois submissa antes era, sim, quando me vestia de ingenuidade... Mas agora, ah! Sou pantera, jazz e rock and roll - Deixei de lado a minha condição de menina. Você me vê maluca, é que a minha alma cresceu: Grandes antes eram as minhas limitações. Limitações estas que ficaram para trás, junto com a minha submissão doentia.
Lide com isso enquanto eu te observo de longe: Como você foi parar aí? Pouco me importa, na verdade. O meu Maverick amarelo está engatado, meus pulmões respiram Breed no último volume e eu estou partindo. Prometo evitar ciclos excessivos de você. Não quero mais ser alvo de sua pobre esquizofrenia – de tamanha loucura, já basta a minha própria. Eu vou embora, vou sim – estou assumindo o que você, coitado, nunca fez. Sempre que pega o ônibus, desce no ponto seguinte só para voltar a pé! E acrescento aqui que levarei comigo minhas lembranças, meu cheiro e meu co-ra-ção. Pois que não será preciso – e nem quero! - futuras intervenções de restos deixados para trás.
Você, assim tão você, você até demais - vai ficar por aí mesmo, eu sei. Pois fique! Ou vá embora também; mas que faça jus de suas palavras. E então, quando estiver indo embora de vez, quando realmente for embora, faça-me uma surpresa, uma grande surpresa, meu querido, e me entregue este presente embrulhado numa folha velha de jornal: não volte.
A compreensão é a filha dos fortes. Sejamos fortes, então.