segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Asas



Eu nunca havia notado como a lua fica tão feia quando pisa em cima de mim, como a rua consegue ter tantos buracos ameaçando me engolir, como as árvores ficam nuas enquanto as folhas que deveriam revestí-las caem aos seus pés, sem vida. Eu nunca percebi o quanto as pessoas podem ser irritantes, nem como a madrugada consegue ser tão silênciosa ou como o seu cheiro característico me dá náuseas.
Talvez hoje seja um daqueles dias em que a gente percebe o quanto as coisas estão fora de ordem, as pessoas estão fora de si, em que você sente as suas asas platinadas sendo rompidas pelo vento que soprou forte demais. Talvez eu esteja acordando agora, um pouco tarde - eu sei - só para perceber as pequenas falhas dessa vida.
Você contou nos dedos os meus imprevistos, apontou-os para mim enquanto se embriagava naquele whisky barato, e eu fui ficando fria, fria, fria, e senti minhas asas quebradas congelando, pesando em minhas costas e se estilhaçando no chão, fazendo voar pedacinhos minúsculos de gelo ao nosso redor. Eu disse: entra, fique à vontade, não repara a bagunça - enquanto empurrava com os pés uma peça de roupa suja para trás da porta. Você olhou em volta com um sorriso meio torto, com cara de quem não sabia bem o que estava fazendo ali, depois entrou relutante e disse para eu me acalmar, porque as coisas não eram do jeito que eu achava que era. E tinha razão, afinal - agora, enquanto noto as imperfeições que me rodeiam, percebo o quanto eu via rosas onde só havia hibiscos.
Eu sei que as pessoas vão me pedir cuidado. Sei também que pela milésima vez não lhes darei ouvido. Talvez porque eu seja tão extremamente insignificante que o sofrer me seja necessário para que não morra de tédio. Deve ser por isso que sou o tipo de pessoa que narra uma história de amor sem nunca ter protagonizado uma.
De qualquer jeito, eu sei que amanhã você estará batendo à minha porta como quem não quer nada, escondendo algumas implicâncias dentro da calça só para me fazer chorar. Do mesmo jeito eu vou abrir a porta e te deixar entrar, insistindo em socar a mesma tecla que já nem funciona mais - só para acordar na manhã seguinte com gosto de bebida na boca, dor de cabeça e a sensação de que a lua é feia, as pessoas são irritantes e o seu maldito cheiro me dá náuseas.
Foi assim, desse jeito, que até hoje nenhum dos seus adeus durou para sempre.
E nem os meus.

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