“Uma mulher num corpo de menina, e vice-versa” – Lembro-me até hoje das palavras que usara para me descrever, enquanto nos despedíamos envoltos em blusas e cachecóis, naquela manhã fria e chuvosa de segunda-feira, em frente ao táxi impaciente. Dois corpos fugitivos, dois corpos que se conheciam tão bem e que, beirando a avenida sem vida na grande São Paulo, exatamente às 07:15, abrigavam duas almas prolixas, duas mentes insanas, dois corações perturbados, dois seres que enfim se despediam. Aquela segunda-feira, penso eu, fora característica: o tempo e as circunstâncias casaram e formaram uma aliança chuvosa, fria e lúgubre. No entanto estávamos ali, depois de passarmos naquele café desabitado minutos que pareceram horas, fazendo juras que nunca iríamos cumprir, tentando nos firmar na corda bamba. É verdade, afinal, que coisas boas não acontecem em segundas-feiras chuvosas, não é?
A gente se encontrou e era segunda-feira. Lembro que sentamos no banco frio daquele café quase abandonado, onde as únicas pessoas eram você e eu, eu e você, nós dois - loucos agasalhados que marcaram um encontro para traçarem as linhas de suas vidas desequilibradas. Pedimos dois cafés amargos. Você fez uma careta quando queimou a língua, enquanto eu fiz uma careta quando senti o gosto ruim. A gente se completava de jeitos diferentes, sim, éramos quase ideais. Lembro que você me falou coisas bonitas e feias também, e eu, em minha pusilanimidade bem disfarçada, apenas permaneci calada, fazendo-me displicente, ouvindo suas palavras ecoarem e somente prestando atenção em seus lábios, aqueles malditos lábios, os mesmos que já me beijaram, e que já me calaram, e que já me falaram mal.
Você deu risada quando o rádio pequeno e antigo tocou aquela música, justo aquela. Grande coincidência, eu pensei. Ou seria uma piada de mau gosto do Sr. Destino? Trocamos olhares rápidos, talvez por vergonha, talvez medo do que estava por vir. Só agora percebo que aquela segunda-feira fora meticulosamente planejada pela vida, esse embolorado de amores e desamores, a fim de nos fazer encarar o que insistíamos em empurrar para um lado escuro de nossa alma. O dia escolhido, o momento em questão, o péssimo lugar. E, apesar de tudo, estávamos ali, os dois, prontos para o que quer que estivesse para acontecer. Apesar de ser segunda-feira.
E de estar chovendo.
Já repassei aquele dia tantas e tantas vezes em minha cabeça, que devo ter criado falsas lembranças para suprir o que eu queria que tivesse acontecido. Como, por exemplo, o jeito que você me olhava enquanto eu arrumava meu cabelo bagunçado pelo vento, ou o sorriso torto – e que eu tanto gostava – que deu quando eu quase derrubei a xícara de café na mesa, ou o suspiro de tristeza que você soltou quando eu entrei no táxi pela última vez.
“I love the way you love, but I hate the way I'm supposed to love you back” Ecoava, ecoava pelos cantos vazios do café, e a gente lá no meio recebia o acústico quase perfeito. Eu gostaria de ter tido mais tempo para te descobrir, mas tudo sempre é tão breve... Nós fomos muito breves. Queria ter tido tempo para desvendar seus mistérios, seus medos, suas angústias – e quem sabe apará-las todo mês, para que não crescessem demais e te engolissem, como aconteceu. Você era o que era – calmaria, resistência, braços firmes protegendo o coração doído. Sempre com um pé atrás, sempre resistindo, mas quase sem foças para me reter.
A verdade, percebo agora, é que você assistia tudo do lado de fora e se fazia o telespectador. Fingia que não era com você, olhava para o lado, abaixava a cabeça, me dava as costas e sumia entre seus pensamentos mal resolvidos. Fazia tudo e de tudo para fugir - e fugia... Idiotice, mas sinto falta de como você me via tanto e fazia que não via nada, de como me escutava tanto e preferia se fazer de surdo, de como guardava, em algum lugar dentro de você, um pedacinho de mim. Agora eu sei, agora entendo que você não deu conta de mim, você não foi capaz de lidar comigo. Não deu conta e nunca teve saco, nem músculos, nem alma, nem amor e nem coragem suficientes para me reter, para nos reter.
Lembro-me que tomamos nossos cafés em silêncio, depois de uma conversa pobre de alguns poucos minutos. Nós dois já sabíamos o que iria acontecer, e não precisamos colocar em palavras o que já estava prescrito. Encaramo-nos, nos levantamos e de repente já estávamos na avenida sem vida, tremendo sob as várias camadas de blusas e cachecóis, respirando o ar úmido e congelante daquela bendita segunda-feira, às 07:15 da manhã.
“Uma mulher num corpo de menina, e vice-versa” – sua voz grave me soprou as palavras numa calmaria que só mesmo você é capaz de ter. Sorri, e no momento seguinte, já estava dentro do táxi que você insistiu em pagar.
Aquela foi a última vez que te vi. E as minhas segundas-feiras nunca mais foram as mesmas.