quarta-feira, 25 de julho de 2012

Myopia


Era míope: não enxergava a realidade a um palmo de distância. Encarava as caras amarradas das pessoas no ponto de ônibus e só via apatia – não imaginaria, em sua santa inocência, a sujeira acumulada nos pensamentos dos corpos à sua volta. E nem queria: deixava, propositalmente, os óculos que tanto odiava jogados no fundo da bolsa.
Era míope e não enxergava o amor que pairava ao seu lado na avenida movimentada. Presa em sua pressa ilimitada, já depois de pegar o ônibus lotado, caminhava de pés descalços por entre o aglomerado de pessoas atrasadas, olhando de si para si mesma. Não avistara o par de olhos que a observavam – não avistara, em sua ânsia de myopia, o que lhe fora prescrito pela vida.
Era míope, coitada, e não era capaz de viver. Preferia deixar os óculos no fundo da bolsa ao enxergar a realidade, aquela realidade grotesca que fumava um cigarro à sua direita, tentando lhe chamar a atenção. Não – continuava andando todos os dias apressada, ignorando a rua de vida que estendia-se à sua frente, a fim de desfazer-se sem compromisso do que chamava de destino.
De sua visão prolixa e bagunçada: eis que agora, num domingo estarrecido, na madrugada que não a deixa dormir - ela caminha em silêncio pelo quarto cor-de-rosa, com os óculos de lentes grossas em seu rosto pequeno e magro. É doida: ela enxerga por si só e quando lhe convém.
"É que aqui, em meu quarto desarrumado" - apronta-se a dizer, a voz fina arranhando a noite silenciosa - "Aqui tudo é o que é – e nada é de verdade".


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Fique bem.



"Para Alef Francesco, 
que está comigo em
todos os momentos.
Sempre."


Vestido florido, sapatilha de lacinho e aquele cheiro Deep Blue – ela flutua bailarinando pelas calçadas da vida.
Agora, às 03:47 da madrugada, encontro-me jogado no sofá antigo e que me causa tanta dor nas costas, com um cigarro entre os dedos, um copo de whisky na mão e Radiohead em sua versão mais depressiva ecoando pela sala escura e mal cheirosa. E a culpa é sua - é que você é esse tipo de menina-mulher que entra na vida das pessoas com um jeitinho babaca e charmoso e meigo e fofo de ser.
Sabe o que é? Por todo esse tempo, vivi guardando essa coisa que você pode chamar de amor aqui dentro, bem escondida, pra que nenhuma menininha como você pudesse encontrar. Ah, mas você, como se não quisesse nada e com a destreza de pantera tão característica de ti, me invadiu, pegou tudo o que me restava e guardou na mesma caixinha de veludo que esconde sua coleção de corações-partidos. Roubou-me tudo e não me deixou nada além de uma vontade tremenda, enorme, desmesurada de você.
Egoísta. Você acha certo sumir assim? Me deixar plantado nesse sofá velho, enchendo-me de álcool e nicotina, esperando por um telefonema, um telegrama, um alô, um “voltei”? Me invade a imagem de você abrindo a porta da sala - toda delicada, toda bonequinha – e dizendo que só foi dar uma volta, que não queria ter falado aquelas coisas todas, que não iria me abandonar de verdade. Então o ambiente ficaria mais quente e mais iluminado com a sua presença, e a tua silhueta bem desenhada seria a única coisa que meus olhos enxergariam... Pois é, ainda te vejo chegando em casa depois do trabalho e jogando as sapatilhas coloridas no chão, colocando um moletom velho e se esparramando na poltrona com seu livro preferido e uma xícara de chocolate quente. Ainda te vejo acordando todos os dias ao meu lado e fazendo do meu braço o seu travesseiro, ainda vejo a luz perolada que exalava do seu rosto bem desenhado quando você aparecia do nada e sorria para mim. Ainda te sinto aqui, agora, bem pertinho de mim, dando sua risada bonitinha e medonha enquanto eu me recordo de tudo isso. 
Sabe, eu não acreditava que o seu desleixo e desatenção pudessem chegar ao ponto de me esquecer, de me deixar na mão de quem quer que fosse, de sair de malas prontas sem dar tchau. Nem que um dia você não estaria deitada no meio das minhas coisas, que não acordaria descabelada vestindo somente a minha camisa de flanela tamanho G, que um dia você deixaria de derramar café nos meus lençóis limpos e amassados. Sei lá, talvez a culpa não seja inteiramente sua. Talvez a culpa seja minha por ter sido tão ingênuo. Eu errei em ter te colocado no pedestal da minha vida. Você errou em não ter permanecido por lá.
Como a gente faz pra dizer a alguém muito especial: Não me abandone, volte pra mim, fique o quanto quiser, preciso imensamente de vo-cê? Provavelmente você já está longe, dirigindo seu Maverick amarelo, com um braço pra fora da janela e o outro descansando no volante, os olhos verdes no horizonte, os cabelos que você tanto cuida ao vento, descabelados, sem preocupações, como você. Talvez já esteja ouvindo sua rádio preferida enquanto dirige sossegada, talvez seus lábios de rubi estejam cantando Smells like teen spirit enquanto eu trago meu último cigarro, com meu copo de whisky barato já pela metade e o vestido que eu te dei e que você deixou pra trás nas mãos.
Você partiu. Você partiu e já cativa outros olhares em outros lugares, enquanto eu continuo aqui, no mesmo sofá, pensando em como você foi tanto, é tanto e continuará sendo. Só agora entendo que tudo isso fazia parte do seu plano de se ver livre e feliz, de voar pelo céu azul do mundo e sobrevoar a vida, sendo guiada somente pelo vento harmonioso que balança seus cabelos e não a deixa aterrissar. Seu plano de gente, seu plano de espírito, seu plano de mim – o mesmo que você anotou no seu bloquinho cor-de-rosa e que guardou na sua penteadeira bagunçada, no meio das suas muitas maquiagens - como uma meta a cumprir. Talvez você não esteja dirigindo seu Maverick amarelo, mas esteja voando por sobre as casas, as árvores, as pessoas, por sobre mim. Quem sabe? Não se sabe. 
É verdade que você me deixou e não foi por culpa do destino, nem do tempo, nem de Deus: Foi você, com seu coração de gelo e jeitinho de princesa, que pensava no seu plano de voo enquanto eu só pensava em ti.
Você mudou a minha vida, você mudou cada segundo e milímetro e pedaço da minha triste vida, mas eu não mudei nem uma palha da sua, porque tudo em você é tão maior e tão melhor e tão mais bonito do que eu. Você foi tudo, você sempre foi tudo, mas eu não fui nada, nem incômodo eu causei. É que você foi como um dilúvio na minha vida e eu fui só uma garoa fraca na sua. Contradição: É muito tudo pra muito nada. Você me entende?
Ao menos leve em conta o meu tempo desperdiçado e faça uma coisa por mim: Fique bem. Não precisa voltar e me dar mais uma pitada de carinho, como se eu fosse um cachorro faminto te esperando na esquina, atento aos seus passos, sedento de sua atenção. Não, não volte: fique por aí. Viva, ria, voe. Voe o máximo que você puder. Viva tudo o que tem para viver. Cative outros corações, arranque outros sorrisos, outros suspiros, outros olhares. Você sabe que é ótima nisso. Eu vou ficar bem. Eu estava bem antes de te conhecer e vou ficar bem agora que você foi embora. Não precisa me devolver o casaco que ficou com você naquela noite fria: Fica. Guarde o meu casaco, guarde meu cheiro, guarde minhas recordações, guarde meu toque, meu abraço, meu beijo, guarde meu co-ra-ção. Eu vou continuar por aqui mesmo, bebendo meu whisky, fumando meu Marlboro e lembrando de você, que me abandonou: você: louca varrida, doida de pedra, coração de gelo, meu amor.
Eu vou cuidar de mim. Só me faça um último favor: Cuide de você também.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Os fins e afins de uma segunda-feira chuvosa



“Uma mulher num corpo de menina, e vice-versa” – Lembro-me até hoje das palavras que usara para me descrever, enquanto nos despedíamos envoltos em blusas e cachecóis, naquela manhã fria e chuvosa de segunda-feira, em frente ao táxi impaciente. Dois corpos fugitivos, dois corpos que se conheciam tão bem e que, beirando a avenida sem vida na grande São Paulo, exatamente às 07:15, abrigavam duas almas prolixas, duas mentes insanas, dois corações perturbados, dois seres que enfim se despediam. Aquela segunda-feira, penso eu, fora característica: o tempo e as circunstâncias casaram e formaram uma aliança chuvosa, fria e lúgubre. No entanto estávamos ali, depois de passarmos naquele café desabitado minutos que pareceram horas, fazendo juras que nunca iríamos cumprir, tentando nos firmar na corda bamba. É verdade, afinal, que coisas boas não acontecem em segundas-feiras chuvosas, não é?
A gente se encontrou e era segunda-feira. Lembro que sentamos no banco frio daquele café quase abandonado, onde as únicas pessoas eram você e eu, eu e você, nós dois - loucos agasalhados que marcaram um encontro para traçarem as linhas de suas vidas desequilibradas. Pedimos dois cafés amargos. Você fez uma careta quando queimou a língua, enquanto eu fiz uma careta quando senti o gosto ruim. A gente se completava de jeitos diferentes, sim, éramos quase ideais. Lembro que você me falou coisas bonitas e feias também, e eu, em minha pusilanimidade bem disfarçada, apenas permaneci calada, fazendo-me displicente, ouvindo suas palavras ecoarem e somente prestando atenção em seus lábios, aqueles malditos lábios, os mesmos que já me beijaram, e que já me calaram, e que já me falaram mal.
Você deu risada quando o rádio pequeno e antigo tocou aquela música, justo aquela. Grande coincidência, eu pensei. Ou seria uma piada de mau gosto do Sr. Destino? Trocamos olhares rápidos, talvez por vergonha, talvez medo do que estava por vir. Só agora percebo que aquela segunda-feira fora meticulosamente planejada pela vida, esse embolorado de amores e desamores, a fim de nos fazer encarar o que insistíamos em empurrar para um lado escuro de nossa alma. O dia escolhido, o momento em questão, o péssimo lugar. E, apesar de tudo, estávamos ali, os dois, prontos para o que quer que estivesse para acontecer. Apesar de ser segunda-feira.
E de estar chovendo.
Já repassei aquele dia tantas e tantas vezes em minha cabeça, que devo ter criado falsas lembranças para suprir o que eu queria que tivesse acontecido. Como, por exemplo, o jeito que você me olhava enquanto eu arrumava meu cabelo bagunçado pelo vento, ou o sorriso torto – e que eu tanto gostava – que deu quando eu quase derrubei a xícara de café na mesa, ou o suspiro de tristeza que você soltou quando eu entrei no táxi pela última vez.
“I love the way you love, but I hate the way I'm supposed to love you back” Ecoava, ecoava pelos cantos vazios do café, e a gente lá no meio recebia o acústico quase perfeito. Eu gostaria de ter tido mais tempo para te descobrir, mas tudo sempre é tão breve... Nós fomos muito breves. Queria ter tido tempo para desvendar seus mistérios, seus medos, suas angústias – e quem sabe apará-las todo mês, para que não crescessem demais e te engolissem, como aconteceu. Você era o que era – calmaria, resistência, braços firmes protegendo o coração doído. Sempre com um pé atrás, sempre resistindo, mas quase sem foças para me reter.
A verdade, percebo agora, é que você assistia tudo do lado de fora e se fazia o telespectador. Fingia que não era com você, olhava para o lado, abaixava a cabeça, me dava as costas e sumia entre seus pensamentos mal resolvidos. Fazia tudo e de tudo para fugir - e fugia... Idiotice, mas sinto falta de como você me via tanto e fazia que não via nada, de como me escutava tanto e preferia se fazer de surdo, de como guardava, em algum lugar dentro de você, um pedacinho de mim. Agora eu sei, agora entendo que você não deu conta de mim, você não foi capaz de lidar comigo. Não deu conta e nunca teve saco, nem músculos, nem alma, nem amor e nem coragem suficientes para me reter, para nos reter.
Lembro-me que tomamos nossos cafés em silêncio, depois de uma conversa pobre de alguns poucos minutos. Nós dois já sabíamos o que iria acontecer, e não precisamos colocar em palavras o que já estava prescrito. Encaramo-nos, nos levantamos e de repente já estávamos na avenida sem vida, tremendo sob as várias camadas de blusas e cachecóis, respirando o ar úmido e congelante daquela bendita segunda-feira, às 07:15 da manhã.
“Uma mulher num corpo de menina, e vice-versa” – sua voz grave me soprou as palavras numa calmaria que só mesmo você é capaz de ter. Sorri, e no momento seguinte, já estava dentro do táxi que você insistiu em pagar.
Aquela foi a última vez que te vi. E as minhas segundas-feiras nunca mais foram as mesmas.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Retrato de outrem

Não estava tão distante assim para que não pudessem vê-lo, nem encontrava-se tão indiferente para que não pudessem senti-lo. Não falava muito; e seus passos, sempre apressados, sempre fugitivos, sempre os mesmos: revestiam-se de eterno devaneio. Também não costumava sorrir – achava desnecessário. Entretanto, não era uma pessoa triste, não: Guardava sua felicidade dentro de si, para que não pudessem roubá-la. Seguia relativamente feliz, vivendo seus dias longos e chatos com um uma mescla quase insignificante de otimismo. Mas também era rancoroso – culpava as pessoas, o tempo, o destino – Só não culpava a si mesmo. Disfarçava sua tristeza em arrogância – de cabeça erguida, contornava os muros da cidade como quem não via nada, nem sentia. Caminhava, caminhava somente, e não via – ou não queria enxergar – para onde ia. Prolixidade - era o que era - prolixidade e contradição. Acabou perdendo-se entre as ruas tristes e escuras da melancolia. E, enquanto fingia que sabia o que era ou o que queria, tornou-se prisioneiro de sua própria ilusão.
Sorte que resguardava ainda, em algum lugar dentro de si, sua intocada felicidade.