sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Misantropia



Ela olhou no espelho e se viu um lobo. Sob a luz amarelada do banheiro, seu reflexo a encarava: olhos hostis, a boca fechada raivosamente - portava um ar de rebeldia melancolicamente diabólico. Era o resultado de sua vida politicamente incorreta.
O momento era oportuno: Apodrecia como uma maçã esquecida em baixo da cama. Ela caía, a garota, em uma espiral para o fundo, e além...
Falava tudo desapegadamente, como se fosse uma peça solta e desenganchada. No final, depois de tantas vírgulas, eis que permanecia estranhamente longe. E quando acordava no meio da madrugada por causa de um sonho ruim, olhava no espelho e se via um lobo: Sozinha. Perigosamente carnívora.
O escudo que devia protegê-la virou-se contra ela. O príncipe enraivou-se contra a princesa, o espelho contra a rainha: Seu medo a comeu viva. E a coitada, menina-lobo, batom vermelho-sangue - ela simplesmente sorriu. Era misantropia pura, a garota...

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cinzas


O vício, este impregnava-se como um câncer maligno. Do cigarro que traguei, das formas brandas e brancas que o vento, traiçoeiro, apagou: devo nada mais que mil palavras roubadas. Quando me vinha à boca e os pulmões inchavam, frases feitas esvaiam-se sorrateiramente, sumindo em meio as ondas tóxicas de nicotina.
Perniciosamente, tirou-me a vida. E da vida, dessa vida não me resta nada mais que um pouco de cinza, olha só... Um pouco de cinza e nada mais.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Asas



Eu nunca havia notado como a lua fica tão feia quando pisa em cima de mim, como a rua consegue ter tantos buracos ameaçando me engolir, como as árvores ficam nuas enquanto as folhas que deveriam revestí-las caem aos seus pés, sem vida. Eu nunca percebi o quanto as pessoas podem ser irritantes, nem como a madrugada consegue ser tão silênciosa ou como o seu cheiro característico me dá náuseas.
Talvez hoje seja um daqueles dias em que a gente percebe o quanto as coisas estão fora de ordem, as pessoas estão fora de si, em que você sente as suas asas platinadas sendo rompidas pelo vento que soprou forte demais. Talvez eu esteja acordando agora, um pouco tarde - eu sei - só para perceber as pequenas falhas dessa vida.
Você contou nos dedos os meus imprevistos, apontou-os para mim enquanto se embriagava naquele whisky barato, e eu fui ficando fria, fria, fria, e senti minhas asas quebradas congelando, pesando em minhas costas e se estilhaçando no chão, fazendo voar pedacinhos minúsculos de gelo ao nosso redor. Eu disse: entra, fique à vontade, não repara a bagunça - enquanto empurrava com os pés uma peça de roupa suja para trás da porta. Você olhou em volta com um sorriso meio torto, com cara de quem não sabia bem o que estava fazendo ali, depois entrou relutante e disse para eu me acalmar, porque as coisas não eram do jeito que eu achava que era. E tinha razão, afinal - agora, enquanto noto as imperfeições que me rodeiam, percebo o quanto eu via rosas onde só havia hibiscos.
Eu sei que as pessoas vão me pedir cuidado. Sei também que pela milésima vez não lhes darei ouvido. Talvez porque eu seja tão extremamente insignificante que o sofrer me seja necessário para que não morra de tédio. Deve ser por isso que sou o tipo de pessoa que narra uma história de amor sem nunca ter protagonizado uma.
De qualquer jeito, eu sei que amanhã você estará batendo à minha porta como quem não quer nada, escondendo algumas implicâncias dentro da calça só para me fazer chorar. Do mesmo jeito eu vou abrir a porta e te deixar entrar, insistindo em socar a mesma tecla que já nem funciona mais - só para acordar na manhã seguinte com gosto de bebida na boca, dor de cabeça e a sensação de que a lua é feia, as pessoas são irritantes e o seu maldito cheiro me dá náuseas.
Foi assim, desse jeito, que até hoje nenhum dos seus adeus durou para sempre.
E nem os meus.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Numb

... E tentar fugir do inevitável, sempre pisando em nuvens e achando que se eu me desvencilhar desse avião, ele não vai voltar mais rápido e potente para me machucar. Que engraçado esse meu jeito ímpar de achar que se eu me esconder aqui dentro, o que me faz mal irá embora sem olhar para trás.
A verdade é que sinto-me tão numb nesse momento que é como se não sentisse mais nada. É a hora perfeita para fugir de você.