sexta-feira, 2 de março de 2012

O anjo mascarado

Você, que vejo cantando derrotas aos quatro ventos, bebendo um café infeliz, totalmente alheio ao murmurar das gentes. Tem sempre a mesma cara, e nutre os mesmos sentimentos, e chora sempre as mesmas dores, projetando uma sombra absurda aos seus pés - e que insiste em te seguir ao menos enquanto houver luz para alimentá-la. Sorri amargamente, pensando que de sua vida só lhe restam desgraças de quem te desmereceu, depois de merecer e antes de fugir. Também o olhar apagado já não registra bons momentos, e só vê o que quer enxergar, assim como a mente descontrolada só acredita no que quer acreditar - em sua própria verdade. Você grita suas desilusões, e retém seus rancores, e nesse caminho estragado alimentou o coração orgulhoso de ira, acorrentando-o contra os braços e mantendo-o fora de alcance, para que não pudessem mais invadi-lo. Você, que rasga a carne do amor com os dentes e cospe os restos aos bueiros imundos da cidade, e que vive um sonho amargurado, suando para chegar ao topo - que na verdade já está ocupado... Anjo mascarado, esconde a verdadeira face, e anda sempre amedrontado! Com suas pernas trêmulas e suas mãos nervosas, e seu riso exagerado, descontrolado, beirando à loucura. Se esconde por trás dos muros para que não o vejam despir a máscara e respirar finalmente. Sempre o mesmo em sua ousada decadência! Não terá, se vasculhar o âmago de sua alma, um fragmento de amor? Para que possa despir o que te enconde e mostrar-se quem verdadeiramente é à luz do dia? Se sentiria mais leve, libertado, e caminharia desleixado pelas ruas de sua terra, amando apenas - e deixando ser amado. 
Anjo mascarado, dessa vida efêmera não levamos quase nada! Talvez um punhado de alguém, um fragmento de luz, uma pitada de sorriso, algumas recordações, umas dezenas de lágrimas. E não sabemos a hora que nos será tirado o direito de viver. Pode ser que viva cem anos deitado em uma cama, apenas coçando a cabeça e se levantando para ir ao banheiro ou xingar alguém. Ou pode ser que viva trinta anos correndo para chegar ao outro lado, e pare um minuto para descansar - e neste minuto, a morte imagina que estivesse ali à sua espera, e aparece vestida de cetim, beijando-lhe a boca. 
Vive como o camelo do poema de Cecília: mastigando sua eterna solidão. Mas deveria tomar as lições da aula inaugural de Quintana: Dança, pois, teu desespero, dança. Tua miséria, teus arrebatamentos, teus júbilos. E mesmo que temas imensamente a Deus, dança como David diante da Arca da Aliança, e mesmo que temas imensamente a morte, dança diante da tua cova. 
Aceita então o meu conselho, e conseguirá dormir à noite sem temer as derrotas do dia seguinte. Não tenho, pois, nada mais a lhe dizer. Pode agora mesmo pegar um ônibus sem destino e se perder nas frestas escuras desse mundo louco, pode cavar um buraco no chão com as próprias unhas para esconder-se daqueles que te sorriram. Pode costurar suas asas quebradas e tentar um voo para onde meus olhos não possam ver, pode até despir a máscara que te esconde a verdadeira face - ou pode continuar com ela pelo resto de seus dias amargos. Pode ir, pode ficar, pode sumir - Só não grita ao meu ouvido! Que de suas palavras ensaiadas eles já estão cansados. 




Conselho

Recomponha-te
Liberta-te
Fala-te
A si mesmo
A verdade sobre
Ti.

Jura-te
Cumpra-te
Prometa-te
A tua verdade,
Que é para
Confiar em
Ti.

Amadureça-te
Explora-te
Conheça-te
E mergulhe em teu
Âmago
Para não mais perder-se de
Ti.

Perdoa-te
Por fim
E faze as pazes contigo,
Para que não te esqueças
De que vives para ti
E somente para
Ti.