Mas me foram jogadas na cara endrôminas de uma língua afiada. Em minha cegueira, fui guiada apenas pelo conjunto de palavras pérfidas que me foram sopradas. E até que a luz proditória revelasse a hipocrisia que se escondia nas frestas de um falso sentimento, permaneci no negrume do meu interior - vivendo sob a farsa de um ser quase-perfeito. Eu o encaro de volta, e sinto o coração saltar no peito - o nervosismo único de se poder olhar nos olhos do motivo de sua angústia. Eu o odeio! Odeio tanto que quero beijá-lo, quero abraçá-lo, quero segurar sua mão e permanecer ao seu lado até que meus olhos se fechem para o sono profundo. Mas permaneço parada, dura como pedra, tomando o cuidado de não demonstrar qualquer emoção se não indiferença. E eis o que aquela figura me traz escondido no meio do seu sorriso sarcástico - a indiferença retomada e redobrada, que me atinge como uma bola de tênis na testa. Ele dá sua última tragada da noite e apaga a bituca do cigarro com a sola daquele sapato que eu tanto odeio, ajeita a camisa branca e vira as costas, dobrando a esquina e desaparecendo de vista. Chorei: Duas lágrimas grossas que não tiveram tempo de rolar por meu rosto, tão apressadas estavam minhas mãos em enxugá-las. E depois sorri: O sorriso mais falso e isento de qualquer emoção se não uma pontada de sofrimento, que logo foi substituída por uma dose forte de raiva. Raiva, ódio, e por último desprezo. Mas que durou apenas algum momento, não mais que uma semana. Foi quando o vi pela segunda vez, encostado num poste de luz, com uma jaqueta de couro e um cigarro na boca. Ele me encara com o mesmo olhar sem vida, e me dá o mesmo sorriso sarcástico. E meu coração, tão acostumado estava diante daquela figura imperfeita, retomou os batimentos fortes e nervosos que guardava para momentos como aquele. Mas me são jogadas na cara endrôminas de uma língua afiada! Eu me dou conta, e me desespero, e repito para mim mesma que aquilo está errado - São mentiras, são balelas! Corra, fuja, ignore, não se deixe levar!
Mas ele, aquela figura que me olha, e me conquista, e que mente, e em seguida some, e volta só pra fazer tudo de novo. Ele, que um dia me fez apaixonar e no outro não me deu notícias, e que nesse momento me olha com a indiferença que eu tanto gostaria de ter, mas que lhe é tão natural: Ele é o errôneo.
Mas é erroneamente ideal para mim.

