quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Endrôminas

E me foram jogadas na cara endrôminas de uma língua afiada. Acreditei, e em toda a minha ingenuidade, me deixei levar. Aquele, escondido por trás de seu falso sentimentalismo, tornou-se o motivo de meu escárnio, e ainda assim continuou com suas artimanhas - o olhar apagado e que tanto me seduz, a risada bizarra e que tanto me tira o fôlego, as palavras falsas e que tanto me enganam, aquela postura decidida, culta, engenhosa e meticulosamente elaborada para chamar a minha atenção. Encara-me com um cigarro na boca e uma mão na cintura, e se permite um sorriso sarcástico. Me aborrece tudo: odeio o seu cabelo bagunçado, odeio seus óculos enormes, odeio o sapato que calça, o perfume que usa, o modo como cruza as pernas e como traga o cigarro: Odeio tudo. E no entanto, não odeio nada. Amo cada centímetro de seu corpo, e cada atitude que lhe é tomada: Desde o cabelo mal penteado, até o jeito como puxa a fumaça densa para os pulmões escuros - me encanta, me chateia. Me encanta o fato de ser tão erroneamente ideal. Me chateia o fato de me atrair exatamente o que é erroneamente ideal.
Mas me foram jogadas na cara endrôminas de uma língua afiada. Em minha cegueira, fui guiada apenas pelo conjunto de palavras pérfidas que me foram sopradas. E até que a luz proditória revelasse a hipocrisia que se escondia nas frestas de um falso sentimento, permaneci no negrume do meu interior - vivendo sob a farsa de um ser quase-perfeito. Eu o encaro de volta, e sinto o coração saltar no peito - o nervosismo único de se poder olhar nos olhos do motivo de sua angústia. Eu o odeio! Odeio tanto que quero beijá-lo, quero abraçá-lo, quero segurar sua mão e permanecer ao seu lado até que meus olhos se fechem para o sono profundo. Mas permaneço parada, dura como pedra, tomando o cuidado de não demonstrar qualquer emoção se não indiferença. E eis o que aquela figura me traz escondido no meio do seu sorriso sarcástico - a indiferença retomada e redobrada, que me atinge como uma bola de tênis na testa. Ele dá sua última tragada da noite e apaga a bituca do cigarro com a sola daquele sapato que eu tanto odeio, ajeita a camisa branca e vira as costas, dobrando a esquina e desaparecendo de vista. Chorei: Duas lágrimas grossas que não tiveram tempo de rolar por meu rosto, tão apressadas estavam minhas mãos em enxugá-las. E depois sorri: O sorriso mais falso e isento de qualquer emoção se não uma pontada de sofrimento, que logo foi substituída por uma dose forte de raiva. Raiva, ódio, e por último desprezo. Mas que durou apenas algum momento, não mais que uma semana. Foi quando o vi pela segunda vez, encostado num poste de luz, com uma jaqueta de couro e um cigarro na boca. Ele me encara com o mesmo olhar sem vida, e me dá o mesmo sorriso sarcástico. E meu coração, tão acostumado estava diante daquela figura imperfeita, retomou os batimentos fortes e nervosos que guardava para momentos como aquele. Mas me são jogadas na cara endrôminas de uma língua afiada! Eu me dou conta, e me desespero, e repito para mim mesma que aquilo está errado - São mentiras, são balelas! Corra, fuja, ignore, não se deixe levar!
Mas ele, aquela figura que me olha, e me conquista, e que mente, e em seguida some, e volta só pra fazer tudo de novo. Ele, que um dia me fez apaixonar e no outro não me deu notícias, e que nesse momento me olha com a indiferença que eu tanto gostaria de ter, mas que lhe é tão natural: Ele é o errôneo.

Mas é erroneamente ideal para mim.


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