Rip off your skin
and find out
what's really inside you
Onde vivem as palavras
quarta-feira, 22 de julho de 2015
domingo, 12 de julho de 2015
Non Lasciarmi Andare
Estava eu relendo alguns dos meus rascunhos, até que me deparei com um texto
peculiar. Já nem lembrava daquelas palavras de 2013, que escrevera durante meu intercâmbio nos Estados Unidos. Tinha dezenove anos na
época, uma menina que se achava mulher em meio aos coqueiros e ao clima
desértico californiano. Hoje, com 21 - uma mulher que quer voltar a ser menina
- reli o texto que nunca fora publicado (não me lembro por qual motivo) e não
pude deixar de pensar em como os desejos são mutáveis e as pessoas,
substituíveis. O rapazinho que me inspirou a escrever aquelas palavras é um
francês com o qual mal mantenho contato (oi como está a vida? bem obrigado de
nada) e que hoje me é tão insignificante que as vezes me custa lembrar seu
nome; mas que na época, ah, me despertava amores e risinhos apaixonados e ai
meu deus ele olhou pra mim. Depois dele veio outro, e outro - a fila anda, é o
que dizem - e hoje ele nada mais é que alguém que passou brevemente por minha
vida, despertando sentimentos e tomando-os de volta como um dono que retoma um
livro emprestado. Nada mais restara além daquelas palavras; palavras que na
época me pareceram extremamente verdadeiras - ele é tão lindo amo ele - mas que
hoje me fazem rir do quão inocente eu podia ser.
Apesar da pessoa em questão não me despertar nada mais além de algumas lembranças agradáveis, achei o texto bonitinho. Non Lasciarmi Andare... Já nem lembrava o significado dessa frase. Quando pesquisei - obrigado pelo google tradutor - não pude evitar uma gargalhada. Não me deixe ir. A Bárbara de 2013 me faz rir com frequência. Cute.
O que podemos absorver dessa história toda é que os desejos são mutáveis e as pessoas, substituíveis. O tempo passa, apaga e reconstrói, muda pensamentos e atitudes. E as pessoas entram e saem da nossa vida continuamente, como bem entenderem. Algumas se vão para sempre. Outras, só para voltar depois (chame de destino, se quiser, e agarre-se a ele) e só nos resta abraçar as lembranças deixadas e procurar espaço para mais uma. Até que encontremos alguém que queira ficar.
Foi quando estava por aí, navegando e descobrindo páginas e palavras e lembranças. Passar alguns mêses em outro país deve ter me aberto os olhos. Lá estava eu, em meu escritório mal iluminado, cuidando da minha própria vida quando... Me dei conta, sem mais nem menos, de que pessoas idiotas são pessoas idiotas em qualquer lugar do mundo. Que um mais um são... dois? E um com um - ah! - são onze.
Era quarta-feira, diazinho insignificante, quando o relógio marcou duas horas da madrugada. Fiz as contas para saber que horas seriam no Brasil, pensei em pegar o telefone - I miss you, mom! - depois desisti e bocejei. Desejei nunca ter tido aquela conversa com aquela fulana. Menina esperta, mas perigosa.
"Ele vai te machucar sendo brasileiro ou italiano, querida." - Ela disse, seus olhos castanhos fixados estranhamente nos meus.
"A diferença é que italiano é mais gostoso." - Respondi. Queria dar a impressão de que não me importava. "E eu a-do-ro macarrão".
Ela não pareceu gostar da piada. Vadia.
Viver longe é engraçado. Engraçado de um jeito estranho. É acordar com a mesma ansiedade e obsessão e desespero de quando eu estava nas ruas do Rio, mas em vez de pensar em verde e amarelo, eu penso em cor de abacate (não me lembro das cores da bandeira Italiana. Mi dispiace, il mio amore. Você me deixa confusa). É comer abacate no café da manhã, estudar abacate na escola, falar abacatês com você e ainda ter estômago pra mais abacate no almoço, na janta, no banho, na cama. É sentir a mesma sensação estranha na barriga, os mesmos pensamentos que não vão embora, a mesma vontade louca e excruciante de te ter e te querer e acordar ao seu lado ouvindo música e olhando em seus olhos italianos, sentindo seu cheiro italiano, beijando seus lábios italianos que me dão beijos franceses. É perceber, da mesa do escritório às duas da manhã em plena quarta-feira, que é possível sentir tudo isso novamente, e em dobro, e de novo e de novo - só que por uma pessoa completamente diferente, de um país diferente, em um país diferente. Mas o mais engraçado - e o motivo que me faz querer comer mais abacate ao invés de voltar a tomar caipirinha de brigadeiro (Viva a Itália) - é que, ainda que o que é bom seja similar, eu já não sinto as mesmas dores, não choro as mesmas lágrimas, não sinto o gosto depressivo de amor barato. Dessa vez - e eu não estou reclamando, veja bem - não tem muita coisa ruim. Talvez seja porque não é amor - ficaria aliviada! - Ou talvez seja porque amor de verdade não dói daquele jeito. Ou talvez, e de um jeito estranho eu prefiro acreditar nisso, talvez eu apenas não tenha mais saco pra todo aquele melodrama. (Baba baby, baby baba, a criança cresceu.) - I'm so proud of you, darling! - Seja como for, quero continuar a me lambuzar de molho italiano como se tivesse cinco anos - mas, por favor, com malícia de 21, garçom - mesmo sabendo que um dia (em míseros dois meses, me dói admitir) o abacate vai acabar e não vai me sobrar nada além do meu eterno verde e amarelo, um gostinho de quero-mais e muitas lembranças italianas. Engraçado, engraçado, engraçado! Mas porque então, diabos!, porque não me deu vontade de rir quando Outubro acabou?
Non lasciarmi andare!
O ambiente agourento do meu escritório parecia me confortar. De repente eu quis deitar ali, com a cabeça apoiada no teclado do computador, as teclas fazendo desenhos quadrados em meu rosto conforme o tempo passava. Com meus olhos fechados e ainda longe de dormir, pensei na conversa que tive com a fulana, o motivo pelo qual eu estava ali, com a cabeça no teclado, temendo o dia em que teria que voltar ao Brasil, maldito dia! - e não mais dar beijos italianos, ou franceses.
"Ele vai te machucar sendo brasileiro ou italiano, querida."
Ah, fulana! Se não fosse por você, eu não teria percebido a falta que esse abacatês todo vai fazer.
"Onde é que eu compro mais?"
"Você não pode".
Meu rosto formigava. Eu queria ficar ali para sempre.
Apesar da pessoa em questão não me despertar nada mais além de algumas lembranças agradáveis, achei o texto bonitinho. Non Lasciarmi Andare... Já nem lembrava o significado dessa frase. Quando pesquisei - obrigado pelo google tradutor - não pude evitar uma gargalhada. Não me deixe ir. A Bárbara de 2013 me faz rir com frequência. Cute.
O que podemos absorver dessa história toda é que os desejos são mutáveis e as pessoas, substituíveis. O tempo passa, apaga e reconstrói, muda pensamentos e atitudes. E as pessoas entram e saem da nossa vida continuamente, como bem entenderem. Algumas se vão para sempre. Outras, só para voltar depois (chame de destino, se quiser, e agarre-se a ele) e só nos resta abraçar as lembranças deixadas e procurar espaço para mais uma. Até que encontremos alguém que queira ficar.
Non Lasciarmi Andare
08/11/2013
08/11/2013
Foi quando estava por aí, navegando e descobrindo páginas e palavras e lembranças. Passar alguns mêses em outro país deve ter me aberto os olhos. Lá estava eu, em meu escritório mal iluminado, cuidando da minha própria vida quando... Me dei conta, sem mais nem menos, de que pessoas idiotas são pessoas idiotas em qualquer lugar do mundo. Que um mais um são... dois? E um com um - ah! - são onze.
Era quarta-feira, diazinho insignificante, quando o relógio marcou duas horas da madrugada. Fiz as contas para saber que horas seriam no Brasil, pensei em pegar o telefone - I miss you, mom! - depois desisti e bocejei. Desejei nunca ter tido aquela conversa com aquela fulana. Menina esperta, mas perigosa.
"Ele vai te machucar sendo brasileiro ou italiano, querida." - Ela disse, seus olhos castanhos fixados estranhamente nos meus.
"A diferença é que italiano é mais gostoso." - Respondi. Queria dar a impressão de que não me importava. "E eu a-do-ro macarrão".
Ela não pareceu gostar da piada. Vadia.
Viver longe é engraçado. Engraçado de um jeito estranho. É acordar com a mesma ansiedade e obsessão e desespero de quando eu estava nas ruas do Rio, mas em vez de pensar em verde e amarelo, eu penso em cor de abacate (não me lembro das cores da bandeira Italiana. Mi dispiace, il mio amore. Você me deixa confusa). É comer abacate no café da manhã, estudar abacate na escola, falar abacatês com você e ainda ter estômago pra mais abacate no almoço, na janta, no banho, na cama. É sentir a mesma sensação estranha na barriga, os mesmos pensamentos que não vão embora, a mesma vontade louca e excruciante de te ter e te querer e acordar ao seu lado ouvindo música e olhando em seus olhos italianos, sentindo seu cheiro italiano, beijando seus lábios italianos que me dão beijos franceses. É perceber, da mesa do escritório às duas da manhã em plena quarta-feira, que é possível sentir tudo isso novamente, e em dobro, e de novo e de novo - só que por uma pessoa completamente diferente, de um país diferente, em um país diferente. Mas o mais engraçado - e o motivo que me faz querer comer mais abacate ao invés de voltar a tomar caipirinha de brigadeiro (Viva a Itália) - é que, ainda que o que é bom seja similar, eu já não sinto as mesmas dores, não choro as mesmas lágrimas, não sinto o gosto depressivo de amor barato. Dessa vez - e eu não estou reclamando, veja bem - não tem muita coisa ruim. Talvez seja porque não é amor - ficaria aliviada! - Ou talvez seja porque amor de verdade não dói daquele jeito. Ou talvez, e de um jeito estranho eu prefiro acreditar nisso, talvez eu apenas não tenha mais saco pra todo aquele melodrama. (Baba baby, baby baba, a criança cresceu.) - I'm so proud of you, darling! - Seja como for, quero continuar a me lambuzar de molho italiano como se tivesse cinco anos - mas, por favor, com malícia de 21, garçom - mesmo sabendo que um dia (em míseros dois meses, me dói admitir) o abacate vai acabar e não vai me sobrar nada além do meu eterno verde e amarelo, um gostinho de quero-mais e muitas lembranças italianas. Engraçado, engraçado, engraçado! Mas porque então, diabos!, porque não me deu vontade de rir quando Outubro acabou?
Non lasciarmi andare!
O ambiente agourento do meu escritório parecia me confortar. De repente eu quis deitar ali, com a cabeça apoiada no teclado do computador, as teclas fazendo desenhos quadrados em meu rosto conforme o tempo passava. Com meus olhos fechados e ainda longe de dormir, pensei na conversa que tive com a fulana, o motivo pelo qual eu estava ali, com a cabeça no teclado, temendo o dia em que teria que voltar ao Brasil, maldito dia! - e não mais dar beijos italianos, ou franceses.
"Ele vai te machucar sendo brasileiro ou italiano, querida."
Ah, fulana! Se não fosse por você, eu não teria percebido a falta que esse abacatês todo vai fazer.
"Onde é que eu compro mais?"
"Você não pode".
Meu rosto formigava. Eu queria ficar ali para sempre.
sábado, 11 de julho de 2015
I know you want me
So love me with your skin
With your tongue
With your head
- both -
Because we are only
humans
in need
of love
With your tongue
With your head
- both -
Because we are only
humans
in need
of love
terça-feira, 3 de junho de 2014
No escuro
É no escuro que me imagino com você, meu amor.
No escuro, onde não te enxergo
Apenas escuto.
Onde tudo parece nada, e somos a sombra um do outro
Sem a realidade impura e imperfeita de que somos nós...
E de que não somos um.
É no escuro que nos imagino, meu bem
Onde o toque é quem dita as regras
E não existe regra onde não há luz.
É no escuro,
Onde somos o nada entrelaçado e confundido,
Pois a luz dos meus olhos
já não me faz acreditar...
É no escuro
Porque a realização de você me assusta.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
A filosofia de uma sociedade sem valores
Uma narrativa artística acerca da ausência de valores, da perda da moral, da ética, da negação com-todas-as-palavras da alma: É disso que se trata "A menina sem qualidades", um texto altamente intelectual e filosófico que rechaça sem piedade a sociedade contemporânea.
Dois adolescentes, Ada e Alev, providos de inteligência acima da média - em que aliás a maior parte do tempo supera a de seus superiores, se não todo o tempo - fazem de Smutek, ex-refugiado polonês e professor do Ernst Bloch, vítima de seu jogo. O jogo em questão abrange as questões principais do livro: a moral e a ética. Até que ponto um professor é capaz de fazer aquilo que a sociedade considera impróprio, a fim de evitar uma possível tragédia pessoal e profissional que é polida através da chantagem contínua? Até que ponto uma adolescente é capaz de seguir com esse jogo, ignorando todos os valores sociais, a fim de, de certa forma, testar sua capacidade de não-ser e não-sentir?
Ada possui uma genialidade surpreendente, e suas palavras giram em torno de afirmações acerca de seu niilismo, sua falta de alma e de qualidades. Desde o início do livro, a autora reforça também a falta de beleza física de Ada. Ela pode ser descrita como um patinho feio perigosamente sarcástico e cheio de sabedoria. Alev é um adolescente igualmente inteligente, que compartilha de ideias semelhantes as de Ada, além de possuir a "sede por jogo" que dá forma a história do livro. É um personagem marcante, que carrega consigo o sadismo, a frieza e principalmente, uma capacidade exuberante de manipulação. Juntos, esses adolescentes formam uma parede de tijolos niilistas - ou, melhor dizendo, formam um exército de dois elementos formado pelos "bisnetos dos niilistas". A relação dos mesmos com Smutek, um ser profundamente humanista, inimigo do cinismo e do pessimismo - o que faz dele a vítima perfeita Do Jogo - coloca o cimento que falta para erguer o muro do Castelo Ausente, dilacerado pela falta, moldado pelo cinismo, sadismo e desejo sexual, e abraçado, ainda que no fim, pelo positivismo de um sentimento "de verdade" - ou somente positivo.
"Se os niilistas pelo menos ainda acreditavam que existia alguma coisa na qual podiam não acreditar, Ada e Alev, bisnetos dos niilistas, acusam até mesmo a inexistência de valores e de moral a desprezar". Essa é uma frase do Posfácio do livro, citada muitas vezes durante a história e que explica muito bem a natureza dos pensamentos de Ada e Alev. Eles formam o casamento da Ausência Generalizada em sua forma nua e crua.
Apesar da linguagem complexa, recomendo a todos os interessados em política, filosofia, psicologia, ou mesmo aqueles que somente buscam por um bom romance, a leitura de "A menina sem qualidades". É um livro que promove a reflexão, um texto cujas palavras bem trabalhadas cravam lugar em sua mente e trabalham, moldam, ensinam. Romance surpreendente e repleto de citações poéticas - assim como a obra "O homem sem qualidades" de Robert Musil, que é altamente citada no decorrer da história - uma história que, assim como diz a sinopse "reflete o status quo da nova Europa".
Dois adolescentes, Ada e Alev, providos de inteligência acima da média - em que aliás a maior parte do tempo supera a de seus superiores, se não todo o tempo - fazem de Smutek, ex-refugiado polonês e professor do Ernst Bloch, vítima de seu jogo. O jogo em questão abrange as questões principais do livro: a moral e a ética. Até que ponto um professor é capaz de fazer aquilo que a sociedade considera impróprio, a fim de evitar uma possível tragédia pessoal e profissional que é polida através da chantagem contínua? Até que ponto uma adolescente é capaz de seguir com esse jogo, ignorando todos os valores sociais, a fim de, de certa forma, testar sua capacidade de não-ser e não-sentir?
Ada possui uma genialidade surpreendente, e suas palavras giram em torno de afirmações acerca de seu niilismo, sua falta de alma e de qualidades. Desde o início do livro, a autora reforça também a falta de beleza física de Ada. Ela pode ser descrita como um patinho feio perigosamente sarcástico e cheio de sabedoria. Alev é um adolescente igualmente inteligente, que compartilha de ideias semelhantes as de Ada, além de possuir a "sede por jogo" que dá forma a história do livro. É um personagem marcante, que carrega consigo o sadismo, a frieza e principalmente, uma capacidade exuberante de manipulação. Juntos, esses adolescentes formam uma parede de tijolos niilistas - ou, melhor dizendo, formam um exército de dois elementos formado pelos "bisnetos dos niilistas". A relação dos mesmos com Smutek, um ser profundamente humanista, inimigo do cinismo e do pessimismo - o que faz dele a vítima perfeita Do Jogo - coloca o cimento que falta para erguer o muro do Castelo Ausente, dilacerado pela falta, moldado pelo cinismo, sadismo e desejo sexual, e abraçado, ainda que no fim, pelo positivismo de um sentimento "de verdade" - ou somente positivo.
"Se os niilistas pelo menos ainda acreditavam que existia alguma coisa na qual podiam não acreditar, Ada e Alev, bisnetos dos niilistas, acusam até mesmo a inexistência de valores e de moral a desprezar". Essa é uma frase do Posfácio do livro, citada muitas vezes durante a história e que explica muito bem a natureza dos pensamentos de Ada e Alev. Eles formam o casamento da Ausência Generalizada em sua forma nua e crua.
Apesar da linguagem complexa, recomendo a todos os interessados em política, filosofia, psicologia, ou mesmo aqueles que somente buscam por um bom romance, a leitura de "A menina sem qualidades". É um livro que promove a reflexão, um texto cujas palavras bem trabalhadas cravam lugar em sua mente e trabalham, moldam, ensinam. Romance surpreendente e repleto de citações poéticas - assim como a obra "O homem sem qualidades" de Robert Musil, que é altamente citada no decorrer da história - uma história que, assim como diz a sinopse "reflete o status quo da nova Europa".
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