Apesar da pessoa em questão não me despertar nada mais além de algumas lembranças agradáveis, achei o texto bonitinho. Non Lasciarmi Andare... Já nem lembrava o significado dessa frase. Quando pesquisei - obrigado pelo google tradutor - não pude evitar uma gargalhada. Não me deixe ir. A Bárbara de 2013 me faz rir com frequência. Cute.
O que podemos absorver dessa história toda é que os desejos são mutáveis e as pessoas, substituíveis. O tempo passa, apaga e reconstrói, muda pensamentos e atitudes. E as pessoas entram e saem da nossa vida continuamente, como bem entenderem. Algumas se vão para sempre. Outras, só para voltar depois (chame de destino, se quiser, e agarre-se a ele) e só nos resta abraçar as lembranças deixadas e procurar espaço para mais uma. Até que encontremos alguém que queira ficar.
Non Lasciarmi Andare
08/11/2013
08/11/2013
Foi quando estava por aí, navegando e descobrindo páginas e palavras e lembranças. Passar alguns mêses em outro país deve ter me aberto os olhos. Lá estava eu, em meu escritório mal iluminado, cuidando da minha própria vida quando... Me dei conta, sem mais nem menos, de que pessoas idiotas são pessoas idiotas em qualquer lugar do mundo. Que um mais um são... dois? E um com um - ah! - são onze.
Era quarta-feira, diazinho insignificante, quando o relógio marcou duas horas da madrugada. Fiz as contas para saber que horas seriam no Brasil, pensei em pegar o telefone - I miss you, mom! - depois desisti e bocejei. Desejei nunca ter tido aquela conversa com aquela fulana. Menina esperta, mas perigosa.
"Ele vai te machucar sendo brasileiro ou italiano, querida." - Ela disse, seus olhos castanhos fixados estranhamente nos meus.
"A diferença é que italiano é mais gostoso." - Respondi. Queria dar a impressão de que não me importava. "E eu a-do-ro macarrão".
Ela não pareceu gostar da piada. Vadia.
Viver longe é engraçado. Engraçado de um jeito estranho. É acordar com a mesma ansiedade e obsessão e desespero de quando eu estava nas ruas do Rio, mas em vez de pensar em verde e amarelo, eu penso em cor de abacate (não me lembro das cores da bandeira Italiana. Mi dispiace, il mio amore. Você me deixa confusa). É comer abacate no café da manhã, estudar abacate na escola, falar abacatês com você e ainda ter estômago pra mais abacate no almoço, na janta, no banho, na cama. É sentir a mesma sensação estranha na barriga, os mesmos pensamentos que não vão embora, a mesma vontade louca e excruciante de te ter e te querer e acordar ao seu lado ouvindo música e olhando em seus olhos italianos, sentindo seu cheiro italiano, beijando seus lábios italianos que me dão beijos franceses. É perceber, da mesa do escritório às duas da manhã em plena quarta-feira, que é possível sentir tudo isso novamente, e em dobro, e de novo e de novo - só que por uma pessoa completamente diferente, de um país diferente, em um país diferente. Mas o mais engraçado - e o motivo que me faz querer comer mais abacate ao invés de voltar a tomar caipirinha de brigadeiro (Viva a Itália) - é que, ainda que o que é bom seja similar, eu já não sinto as mesmas dores, não choro as mesmas lágrimas, não sinto o gosto depressivo de amor barato. Dessa vez - e eu não estou reclamando, veja bem - não tem muita coisa ruim. Talvez seja porque não é amor - ficaria aliviada! - Ou talvez seja porque amor de verdade não dói daquele jeito. Ou talvez, e de um jeito estranho eu prefiro acreditar nisso, talvez eu apenas não tenha mais saco pra todo aquele melodrama. (Baba baby, baby baba, a criança cresceu.) - I'm so proud of you, darling! - Seja como for, quero continuar a me lambuzar de molho italiano como se tivesse cinco anos - mas, por favor, com malícia de 21, garçom - mesmo sabendo que um dia (em míseros dois meses, me dói admitir) o abacate vai acabar e não vai me sobrar nada além do meu eterno verde e amarelo, um gostinho de quero-mais e muitas lembranças italianas. Engraçado, engraçado, engraçado! Mas porque então, diabos!, porque não me deu vontade de rir quando Outubro acabou?
Non lasciarmi andare!
O ambiente agourento do meu escritório parecia me confortar. De repente eu quis deitar ali, com a cabeça apoiada no teclado do computador, as teclas fazendo desenhos quadrados em meu rosto conforme o tempo passava. Com meus olhos fechados e ainda longe de dormir, pensei na conversa que tive com a fulana, o motivo pelo qual eu estava ali, com a cabeça no teclado, temendo o dia em que teria que voltar ao Brasil, maldito dia! - e não mais dar beijos italianos, ou franceses.
"Ele vai te machucar sendo brasileiro ou italiano, querida."
Ah, fulana! Se não fosse por você, eu não teria percebido a falta que esse abacatês todo vai fazer.
"Onde é que eu compro mais?"
"Você não pode".
Meu rosto formigava. Eu queria ficar ali para sempre.

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