Uma narrativa artística acerca da ausência de valores, da perda da moral, da ética, da negação com-todas-as-palavras da alma: É disso que se trata "A menina sem qualidades", um texto altamente intelectual e filosófico que rechaça sem piedade a sociedade contemporânea.
Dois adolescentes, Ada e Alev, providos de inteligência acima da média - em que aliás a maior parte do tempo supera a de seus superiores, se não todo o tempo - fazem de Smutek, ex-refugiado polonês e professor do Ernst Bloch, vítima de seu jogo. O jogo em questão abrange as questões principais do livro: a moral e a ética. Até que ponto um professor é capaz de fazer aquilo que a sociedade considera impróprio, a fim de evitar uma possível tragédia pessoal e profissional que é polida através da chantagem contínua? Até que ponto uma adolescente é capaz de seguir com esse jogo, ignorando todos os valores sociais, a fim de, de certa forma, testar sua capacidade de não-ser e não-sentir?
Ada possui uma genialidade surpreendente, e suas palavras giram em torno de afirmações acerca de seu niilismo, sua falta de alma e de qualidades. Desde o início do livro, a autora reforça também a falta de beleza física de Ada. Ela pode ser descrita como um patinho feio perigosamente sarcástico e cheio de sabedoria. Alev é um adolescente igualmente inteligente, que compartilha de ideias semelhantes as de Ada, além de possuir a "sede por jogo" que dá forma a história do livro. É um personagem marcante, que carrega consigo o sadismo, a frieza e principalmente, uma capacidade exuberante de manipulação. Juntos, esses adolescentes formam uma parede de tijolos niilistas - ou, melhor dizendo, formam um exército de dois elementos formado pelos "bisnetos dos niilistas". A relação dos mesmos com Smutek, um ser profundamente humanista, inimigo do cinismo e do pessimismo - o que faz dele a vítima perfeita Do Jogo - coloca o cimento que falta para erguer o muro do Castelo Ausente, dilacerado pela falta, moldado pelo cinismo, sadismo e desejo sexual, e abraçado, ainda que no fim, pelo positivismo de um sentimento "de verdade" - ou somente positivo.
"Se os niilistas pelo menos ainda acreditavam que existia alguma coisa na qual podiam não acreditar, Ada e Alev, bisnetos dos niilistas, acusam até mesmo a inexistência de valores e de moral a desprezar". Essa é uma frase do Posfácio do livro, citada muitas vezes durante a história e que explica muito bem a natureza dos pensamentos de Ada e Alev. Eles formam o casamento da Ausência Generalizada em sua forma nua e crua.
Apesar da linguagem complexa, recomendo a todos os interessados em política, filosofia, psicologia, ou mesmo aqueles que somente buscam por um bom romance, a leitura de "A menina sem qualidades". É um livro que promove a reflexão, um texto cujas palavras bem trabalhadas cravam lugar em sua mente e trabalham, moldam, ensinam. Romance surpreendente e repleto de citações poéticas - assim como a obra "O homem sem qualidades" de Robert Musil, que é altamente citada no decorrer da história - uma história que, assim como diz a sinopse "reflete o status quo da nova Europa".
quinta-feira, 4 de julho de 2013
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
A cor do céu sem nuvens
"A sua normalidade lhe é tão inerente quanto um sorriso sincero nas pessoas tristes."
Ah, que menina boba. Toda sorridente - sorri até pro chão. Tão boba que flutua. E sonha acordada. Quando dorme - coisa de que gosta muito, a tal menina - acha que vive, tão bobinha ela é. Coitada.
Já falei pra ela, nos dias de domingo, aqueles em que havia pão e leite fresquinho, para parar de sonhar, que a vida é dura. Ela mordia um pedaço de pão e olhava para o teto como se ali houvesse algo muito bonito. Depois balbuciava palavras que eu não entendia, porque aqueles olhos sonhadores, de tão bonitos, me roubavam a atenção.
Um dia comentei, enquanto ela andava de pés descalços na grama úmida, que gostaria de saber sua história. Ah, ela era misteriosa, a garota. Boba e misteriosa. Qual seria a origem daqueles olhos sonhadores? Ou do jeito que flutua enquanto anda? Ah, gostaria de saber, primeiro de tudo, a história do seu sorriso. Não, não era um sorriso normal, dessas moças normais (ela não era normal). O sorriso, ah, ele era diferente de tudo que eu já havia visto. Quanta mistura havia nele! Não se sabia se era muito triste ou muito alegre. Era impossível saber o que ele refletia. Não dava para falar se provinha de uma felicidade melancólica ou de uma melancolia feliz. Santo deus, que diabos estou falando? Aquele sorriso me confunde até hoje, veja bem. Se era uma garota triste ou feliz, ninguém sabia. Muito menos sabia-se o porquê de tantos sonhos entrelaçados. O povo se perguntava, vez ou outra, como podia alguém ser tão diferente. Eu mesmo a perguntei, um dia desses em que estávamos debaixo de uma árvore bem grande, enquanto ela observava as nuvens caminharem lá no céu. Perguntei qual era o seu segredo. Senti, por um breve momento, que poderia desvendá-la. Mas novamente, quando ela me encarou com aqueles olhos estranhos e cheios de sonhos, eu me perdi. Nem lembro o que a menina respondeu. Lembro-me apenas do brilho que me cegou por um instante, e que reluzia de suas íris cor de âmbar.
Eu passei anos, e não foram poucos, a tentar uma solução. Eu queria um porquê. Por que aquela menina, com aqueles olhos estranhos, com aquele sorriso misterioso, com aquele jeito engraçado de flutuar - por que nela se misturavam tudo que eu, cacete, mais desprezei em toda a minha vida? Como conseguia ela ser tão boba e sonhadora e desligada da vida, a ponto de me fazer odiá-la tanto? E a ponto, que Deus me perdoe, de querer prendê-la em meus braços para que não possa sair voando quando bem entender?
Ah, que menina boba. Tenho raiva até hoje. Não parecia que vivia. Talvez seja por isso que ela me pareça tão irreal. Era como um anjo. Um anjo azul - sempre diferente, sempre diferente - isso me dá raiva também. Um anjo que aparecia nos momentos mais inesperados. Como aquela noite, lembro-me até hoje (e foi uma das vezes em que eu mais me surpreendi) em que eu jantava na varanda. Chegou descalça (me pergunto até hoje porque ela não gostava de sapatos) e pegou o garfo da minha mão, olha só, assim do nada, como se fosse dona do mundo. Me deu vontade de esganá-la. Ela começou a comer, e nem me olhava. Olhava para baixo. Respirava alto. Doida... Eu comecei a gritar. O que havia de errado com aquele menina? Mas ela parecia não me ouvir. Parecia estar faminta. Eu bati na mesa uma vez. Na segunda, bati tão forte que a taça de vinho barato caiu no chão. Mas ela nem se mexeu. Parecia não ter medo. Tive uma vontade imensa de agarrar aquele pescoço frágil e sufocá-la. Quem sabe ela acordaria. Estava quase atacando aquele anjo azul quando ela largou o garfo de lado e levantou o rosto. Tinha comido toda a minha comida, a biscate. Aquilo me deu ainda mais raiva. Mas então, ela me olhou nos olhos. O brilho, aquele que sempre me deixava perturbado, aquele que me tirava a atenção, havia sumido. Ela estava feia sem aquele brilho. Era como se tivessem apagado a sua chama. E como se a sua chama fosse sua beleza. Murmurei alguma coisa, acho que tentei falar seu nome, mas a minha língua parecia travar quando eu tentava pronunciá-lo. Ela continuava a me encarar, tão azul, tão estranha e inesperadamente tão apagada. Disforme de um jeito belo. Uma feiura dessas que só é feiura porque é triste... Tive vontade de chorar. Depois, tive vontade de matá-la. Esganá-la. Mas eu apenas a sacudi. Peguei naqueles ombros ossudos e comecei a sacudi-la com todas as minhas forças. Quem sabe ela acordaria? Quem sabe ela voltaria a se acender? Sacudi, chacoalhei, gritei. Estava estática. Estática e azul. Então eu a beijei. Tinha gosto de gasolina. Foi horrível.
De repente, o mundo começou a girar mais rápido. Quase como se eu estivesse bêbado. E talvez eu pudesse estar... Quanto vinho havia tomado mesmo?
- Fala alguma coisa! - Eu gritei. Tudo girava, menos ela.
Aquilo estava acabando comigo. Por que ela não falava nada? Por que não se mexia? De tão estática, me pareceu quase morta. Então ela sorriu. Aquele sorriso idiota, e novamente eu não sabia se nele havia alegria ou tristeza. Aquela figura boba e sonhadora me enraivecia. O azul dela me fazia querer vomitar.
Comecei a passar mal. Era uma dor lancinante que me fazia querer arrancar meus olhos. Foi quando a perguntei porque ela estava fazendo aquilo comigo. Por que ela estava, com seu jeito bobo e azul, acabando com a minha vida miserável. Eu estava caído no chão, e suava horrores. A menina, agora, estendia-se a minha frente em uma silhueta quase perfeita. Brilhava.
Eu não sei o que aconteceu depois. Apenas me lembro daquela menina boba, que ainda sorria diante da minha dor (como se o meu sofrimento não lhe importasse, e eu sei que não importava) se afastar. Descalça, flutuante. Azul.
Ah, que menina estranha. Ainda a vejo vez ou outra. Me aparece nos sonhos - flutuante, pés descalços. Em alguns sonhos, seu azul é mais intenso. Em outros, aquele brilho de seus olhos lhe ofusca toda a cor. Vez ou outra, eles estão apagados, como no dia em que ela comeu a minha comida. É então que sinto a pior das dores, como se me tivessem sugando o cérebro. Mas nada se compara como quando ela sorri. De um jeito melancólico, mas feliz. De um jeito feliz, mas melancólico. Que sorriso estranho... É então que eu acordo.
Até hoje, já depois de tantos anos - e me culpo por isso - não desvendei o mistério daquela menina, ou seja lá o que ela for. Tudo que sei, é que a coisa nunca me abandona. Me persegue até hoje. Às vezes, até come a minha comida, como naquela noite horrenda. De vez em quando, escuto sua risada aguda. Agora mesmo, enquanto escrevo - exatamente nesse instante - ela está me encarando. Eu sinto seus olhos sonhadores em mim, prontos para me atacar. Já estou muito doente, tudo dói, e já não aguento mais. Cansei de lhe gritar, de tentar lhe matar, cansei de vê-la, de odiá-la. Não quero mais. Menina doida! Cansei, cansei. E ela não para de me olhar. O ar parece que ficou úmido. Vai chover? Eu nem quero saber. Estou ficando com medo. Se eu parar de escrever para encará-la, sinto que alguma coisa vai acontecer. O que ela é, afinal? Sei que se perguntar, não terei uma resposta. Nunca entendo nada que sai de sua boca. E não quero olhar naqueles olhos... Ou ver sua cor azul... O mesmo azul que se reflete em meu pergaminho agora, enquanto escrevo. Maldita cor do céu sem nuvens! Ah, a tinta da pena está acabando. Não sei o que faço... Porque me assombras? Nem sei teu nome! Ah, eu sinto seus olhos em mim. Esses olhos... Será que ela está sorrindo? Não posso aguentar nem mais um segundo... Se ela fosse mesmo um anjo, não me causaria tanta dor.
Será que estou ficando louco?
***
Entregou-se às sombras. Santiago estava confuso. Perturbado. Rasgou o próprio pescoço com uma peixeira. Agonizou até a morte. Morreu segurando um pedaço de pergaminho, suas últimas palavras no papel.
A garota de que tanto falava, durante seus quarenta e tantos anos: Nunca ninguém a viu.
"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música."
Friedrich Nietzsche
"Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem."
Samuel Beckett
"Até aos quarenta anos o homem permanece louco; quando então começa a reconhecer a sua loucura, a vida já passou."
Martinho Lutero
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Hipotética
"Para Marcos Vysotsky, que me conhece mesmo sem me conhecer. E que carrega consigo, muito do que carrego comigo."
1
Ah, eu gosto do cheiro de terra molhada e de ver o sol nascer atrás das palmeiras. Eu gosto de andar com pés descalços na areia da praia, de molhar os pés na água salgada, gosto de girar e girar e girar num rodopio sem fim. Eu gosto de tomar banho de chuva, de sentir o perfume das flores. Eu gosto de beijos, de sorrisos e sorrisos - e também de fazer as pessoas sorrirem, por mim e para mim.
Eu gosto de música alta, gosto de dar bom dia para quem eu não conheço, gosto de acordar de madrugada, de respirar o ar que a chuva purifica. Eu gosto de mim tanto quanto gosto de você; e gosto de gritar alto para mundo me ouvir. De parar o mundo para me ouvir. De parar o mundo e me ouvir. De me ouvir, somente. Entrar em contato comigo mesma e permanecer assim para sempre.
2
Você é indecifrável - Lhe disseram. Quem é você, afinal?
Por um momento eu fui feita de cetim. Hoje me considero de couro. Firme, resistente, blindada. Mas altamente inflamável. Eu pego fogo fácil. Bastam alguns arranhões para que as lágrimas virem sangue. Mas isso você já sabia - sou quente como brasa, tanto que você não consegue me tocar.
Mas se você não sabe quem eu sou, eu sei muito menos. Tudo que sei, além do fato de que eu sou feita de um material perigoso, é que também sou feita de solidão, de sossego, de dormir sozinha para não ter que dividir o cobertor. Eu sou uma incógnita para mim. De dia, tão feliz que irradio alegria com sorrisos feitos de morango. De noite, triste como uma sereia fora do mar. Triste por natureza, como os poetas... Como se me tivessem feito das cinzas e me colocado um par de asas.
Sou indecifrável, sim.
3
Ela considerava sua solidão como algo sagrado, de muito valor. Algo que lhe deram de presente num domingo de primavera, no lugar de um buquê de rosas. E que ela usava como uma proteção. Uma proteção contra as próprias pessoas. Contra as feridas causadas pela vida. Contra, inclusive, a ideia que ela tinha de solidão.
A garota que driblava aos tropeços o desconhecido, vivia apenas do que era quimérico. Porque tinha medo, porque sua segurança era provida de suas ilusões. E vivia sonhando, com a cabeça nas nuvens. Solitária como o sol, irradiando ao amanhecer. Solitária como a lua, brilhando ao anoitecer. Solitária como ela mesma, tão incomum que era: Tornara-se uma referência de solidão. Precisava de um aviso.
4
Não adianta falar, tudo que eu vou fazer será ouvir. Isso não significa que fará alguma diferença. Meu conselho para mim mesma é que eu continue a brilhar - como fogo, como o sol ou como a lua. Mas que eu brilhe enquanto estiver viva. E que isso não te cegue.
5
Mesmo cego, ainda posso te sentir.
Jogaram-lhe um pouco de água fria na cara. Era à prova de bala, somente. Apagou-se como uma vela soprada pelo vento. Mas continuava ali - mesmo apagada, não deixara de existir.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Vita Detestabilis.
Um dia, alguém me perguntou o que eu queria. Na época, eu, tão ingênua, não soube responder. Hoje, já depois de tantas quedas e com os cabelos brancos de tanto perder, entendo que o que eu queria não tinha nome, nem era possível. Eu ansiava por uma mistura incoerente de amor com liberdade. Infelizmente, descobri que o amor repele a liberdade. E a liberdade evita o amor.
Então, eu escolhi viver. Apenas viver...
Então, eu escolhi viver. Apenas viver...
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