"A sua normalidade lhe é tão inerente quanto um sorriso sincero nas pessoas tristes."
Ah, que menina boba. Toda sorridente - sorri até pro chão. Tão boba que flutua. E sonha acordada. Quando dorme - coisa de que gosta muito, a tal menina - acha que vive, tão bobinha ela é. Coitada.
Já falei pra ela, nos dias de domingo, aqueles em que havia pão e leite fresquinho, para parar de sonhar, que a vida é dura. Ela mordia um pedaço de pão e olhava para o teto como se ali houvesse algo muito bonito. Depois balbuciava palavras que eu não entendia, porque aqueles olhos sonhadores, de tão bonitos, me roubavam a atenção.
Um dia comentei, enquanto ela andava de pés descalços na grama úmida, que gostaria de saber sua história. Ah, ela era misteriosa, a garota. Boba e misteriosa. Qual seria a origem daqueles olhos sonhadores? Ou do jeito que flutua enquanto anda? Ah, gostaria de saber, primeiro de tudo, a história do seu sorriso. Não, não era um sorriso normal, dessas moças normais (ela não era normal). O sorriso, ah, ele era diferente de tudo que eu já havia visto. Quanta mistura havia nele! Não se sabia se era muito triste ou muito alegre. Era impossível saber o que ele refletia. Não dava para falar se provinha de uma felicidade melancólica ou de uma melancolia feliz. Santo deus, que diabos estou falando? Aquele sorriso me confunde até hoje, veja bem. Se era uma garota triste ou feliz, ninguém sabia. Muito menos sabia-se o porquê de tantos sonhos entrelaçados. O povo se perguntava, vez ou outra, como podia alguém ser tão diferente. Eu mesmo a perguntei, um dia desses em que estávamos debaixo de uma árvore bem grande, enquanto ela observava as nuvens caminharem lá no céu. Perguntei qual era o seu segredo. Senti, por um breve momento, que poderia desvendá-la. Mas novamente, quando ela me encarou com aqueles olhos estranhos e cheios de sonhos, eu me perdi. Nem lembro o que a menina respondeu. Lembro-me apenas do brilho que me cegou por um instante, e que reluzia de suas íris cor de âmbar.
Eu passei anos, e não foram poucos, a tentar uma solução. Eu queria um porquê. Por que aquela menina, com aqueles olhos estranhos, com aquele sorriso misterioso, com aquele jeito engraçado de flutuar - por que nela se misturavam tudo que eu, cacete, mais desprezei em toda a minha vida? Como conseguia ela ser tão boba e sonhadora e desligada da vida, a ponto de me fazer odiá-la tanto? E a ponto, que Deus me perdoe, de querer prendê-la em meus braços para que não possa sair voando quando bem entender?
Ah, que menina boba. Tenho raiva até hoje. Não parecia que vivia. Talvez seja por isso que ela me pareça tão irreal. Era como um anjo. Um anjo azul - sempre diferente, sempre diferente - isso me dá raiva também. Um anjo que aparecia nos momentos mais inesperados. Como aquela noite, lembro-me até hoje (e foi uma das vezes em que eu mais me surpreendi) em que eu jantava na varanda. Chegou descalça (me pergunto até hoje porque ela não gostava de sapatos) e pegou o garfo da minha mão, olha só, assim do nada, como se fosse dona do mundo. Me deu vontade de esganá-la. Ela começou a comer, e nem me olhava. Olhava para baixo. Respirava alto. Doida... Eu comecei a gritar. O que havia de errado com aquele menina? Mas ela parecia não me ouvir. Parecia estar faminta. Eu bati na mesa uma vez. Na segunda, bati tão forte que a taça de vinho barato caiu no chão. Mas ela nem se mexeu. Parecia não ter medo. Tive uma vontade imensa de agarrar aquele pescoço frágil e sufocá-la. Quem sabe ela acordaria. Estava quase atacando aquele anjo azul quando ela largou o garfo de lado e levantou o rosto. Tinha comido toda a minha comida, a biscate. Aquilo me deu ainda mais raiva. Mas então, ela me olhou nos olhos. O brilho, aquele que sempre me deixava perturbado, aquele que me tirava a atenção, havia sumido. Ela estava feia sem aquele brilho. Era como se tivessem apagado a sua chama. E como se a sua chama fosse sua beleza. Murmurei alguma coisa, acho que tentei falar seu nome, mas a minha língua parecia travar quando eu tentava pronunciá-lo. Ela continuava a me encarar, tão azul, tão estranha e inesperadamente tão apagada. Disforme de um jeito belo. Uma feiura dessas que só é feiura porque é triste... Tive vontade de chorar. Depois, tive vontade de matá-la. Esganá-la. Mas eu apenas a sacudi. Peguei naqueles ombros ossudos e comecei a sacudi-la com todas as minhas forças. Quem sabe ela acordaria? Quem sabe ela voltaria a se acender? Sacudi, chacoalhei, gritei. Estava estática. Estática e azul. Então eu a beijei. Tinha gosto de gasolina. Foi horrível.
De repente, o mundo começou a girar mais rápido. Quase como se eu estivesse bêbado. E talvez eu pudesse estar... Quanto vinho havia tomado mesmo?
- Fala alguma coisa! - Eu gritei. Tudo girava, menos ela.
Aquilo estava acabando comigo. Por que ela não falava nada? Por que não se mexia? De tão estática, me pareceu quase morta. Então ela sorriu. Aquele sorriso idiota, e novamente eu não sabia se nele havia alegria ou tristeza. Aquela figura boba e sonhadora me enraivecia. O azul dela me fazia querer vomitar.
Comecei a passar mal. Era uma dor lancinante que me fazia querer arrancar meus olhos. Foi quando a perguntei porque ela estava fazendo aquilo comigo. Por que ela estava, com seu jeito bobo e azul, acabando com a minha vida miserável. Eu estava caído no chão, e suava horrores. A menina, agora, estendia-se a minha frente em uma silhueta quase perfeita. Brilhava.
Eu não sei o que aconteceu depois. Apenas me lembro daquela menina boba, que ainda sorria diante da minha dor (como se o meu sofrimento não lhe importasse, e eu sei que não importava) se afastar. Descalça, flutuante. Azul.
Ah, que menina estranha. Ainda a vejo vez ou outra. Me aparece nos sonhos - flutuante, pés descalços. Em alguns sonhos, seu azul é mais intenso. Em outros, aquele brilho de seus olhos lhe ofusca toda a cor. Vez ou outra, eles estão apagados, como no dia em que ela comeu a minha comida. É então que sinto a pior das dores, como se me tivessem sugando o cérebro. Mas nada se compara como quando ela sorri. De um jeito melancólico, mas feliz. De um jeito feliz, mas melancólico. Que sorriso estranho... É então que eu acordo.
Até hoje, já depois de tantos anos - e me culpo por isso - não desvendei o mistério daquela menina, ou seja lá o que ela for. Tudo que sei, é que a coisa nunca me abandona. Me persegue até hoje. Às vezes, até come a minha comida, como naquela noite horrenda. De vez em quando, escuto sua risada aguda. Agora mesmo, enquanto escrevo - exatamente nesse instante - ela está me encarando. Eu sinto seus olhos sonhadores em mim, prontos para me atacar. Já estou muito doente, tudo dói, e já não aguento mais. Cansei de lhe gritar, de tentar lhe matar, cansei de vê-la, de odiá-la. Não quero mais. Menina doida! Cansei, cansei. E ela não para de me olhar. O ar parece que ficou úmido. Vai chover? Eu nem quero saber. Estou ficando com medo. Se eu parar de escrever para encará-la, sinto que alguma coisa vai acontecer. O que ela é, afinal? Sei que se perguntar, não terei uma resposta. Nunca entendo nada que sai de sua boca. E não quero olhar naqueles olhos... Ou ver sua cor azul... O mesmo azul que se reflete em meu pergaminho agora, enquanto escrevo. Maldita cor do céu sem nuvens! Ah, a tinta da pena está acabando. Não sei o que faço... Porque me assombras? Nem sei teu nome! Ah, eu sinto seus olhos em mim. Esses olhos... Será que ela está sorrindo? Não posso aguentar nem mais um segundo... Se ela fosse mesmo um anjo, não me causaria tanta dor.
Será que estou ficando louco?
***
Entregou-se às sombras. Santiago estava confuso. Perturbado. Rasgou o próprio pescoço com uma peixeira. Agonizou até a morte. Morreu segurando um pedaço de pergaminho, suas últimas palavras no papel.
A garota de que tanto falava, durante seus quarenta e tantos anos: Nunca ninguém a viu.
"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música."
Friedrich Nietzsche
"Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem."
Samuel Beckett
"Até aos quarenta anos o homem permanece louco; quando então começa a reconhecer a sua loucura, a vida já passou."
Martinho Lutero
"intoxicated with the madness, i'm in love with your sadness"...
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