"Para Marcos Vysotsky, que me conhece mesmo sem me conhecer. E que carrega consigo, muito do que carrego comigo."
1
Ah, eu gosto do cheiro de terra molhada e de ver o sol nascer atrás das palmeiras. Eu gosto de andar com pés descalços na areia da praia, de molhar os pés na água salgada, gosto de girar e girar e girar num rodopio sem fim. Eu gosto de tomar banho de chuva, de sentir o perfume das flores. Eu gosto de beijos, de sorrisos e sorrisos - e também de fazer as pessoas sorrirem, por mim e para mim.
Eu gosto de música alta, gosto de dar bom dia para quem eu não conheço, gosto de acordar de madrugada, de respirar o ar que a chuva purifica. Eu gosto de mim tanto quanto gosto de você; e gosto de gritar alto para mundo me ouvir. De parar o mundo para me ouvir. De parar o mundo e me ouvir. De me ouvir, somente. Entrar em contato comigo mesma e permanecer assim para sempre.
2
Você é indecifrável - Lhe disseram. Quem é você, afinal?
Por um momento eu fui feita de cetim. Hoje me considero de couro. Firme, resistente, blindada. Mas altamente inflamável. Eu pego fogo fácil. Bastam alguns arranhões para que as lágrimas virem sangue. Mas isso você já sabia - sou quente como brasa, tanto que você não consegue me tocar.
Mas se você não sabe quem eu sou, eu sei muito menos. Tudo que sei, além do fato de que eu sou feita de um material perigoso, é que também sou feita de solidão, de sossego, de dormir sozinha para não ter que dividir o cobertor. Eu sou uma incógnita para mim. De dia, tão feliz que irradio alegria com sorrisos feitos de morango. De noite, triste como uma sereia fora do mar. Triste por natureza, como os poetas... Como se me tivessem feito das cinzas e me colocado um par de asas.
Sou indecifrável, sim.
3
Ela considerava sua solidão como algo sagrado, de muito valor. Algo que lhe deram de presente num domingo de primavera, no lugar de um buquê de rosas. E que ela usava como uma proteção. Uma proteção contra as próprias pessoas. Contra as feridas causadas pela vida. Contra, inclusive, a ideia que ela tinha de solidão.
A garota que driblava aos tropeços o desconhecido, vivia apenas do que era quimérico. Porque tinha medo, porque sua segurança era provida de suas ilusões. E vivia sonhando, com a cabeça nas nuvens. Solitária como o sol, irradiando ao amanhecer. Solitária como a lua, brilhando ao anoitecer. Solitária como ela mesma, tão incomum que era: Tornara-se uma referência de solidão. Precisava de um aviso.
4
Não adianta falar, tudo que eu vou fazer será ouvir. Isso não significa que fará alguma diferença. Meu conselho para mim mesma é que eu continue a brilhar - como fogo, como o sol ou como a lua. Mas que eu brilhe enquanto estiver viva. E que isso não te cegue.
5
Mesmo cego, ainda posso te sentir.
Jogaram-lhe um pouco de água fria na cara. Era à prova de bala, somente. Apagou-se como uma vela soprada pelo vento. Mas continuava ali - mesmo apagada, não deixara de existir.

=D
ResponderExcluirAcho que deu um salto em relação aos últimos textos q li