"Para Alef Francesco,
que está comigo em
todos os momentos.
Sempre."
Vestido florido, sapatilha de lacinho e aquele cheiro Deep Blue – ela flutua bailarinando pelas calçadas da vida.
Agora, às 03:47 da madrugada, encontro-me jogado no sofá antigo e que me causa tanta dor nas costas, com um cigarro entre os dedos, um copo de whisky na mão e Radiohead em sua versão mais depressiva ecoando pela sala escura e mal cheirosa. E a culpa é sua - é que você é esse tipo de menina-mulher que entra na vida das pessoas com um jeitinho babaca e charmoso e meigo e fofo de ser.
Sabe o que é? Por todo esse tempo, vivi guardando essa coisa que você pode chamar de amor aqui dentro, bem escondida, pra que nenhuma menininha como você pudesse encontrar. Ah, mas você, como se não quisesse nada e com a destreza de pantera tão característica de ti, me invadiu, pegou tudo o que me restava e guardou na mesma caixinha de veludo que esconde sua coleção de corações-partidos. Roubou-me tudo e não me deixou nada além de uma vontade tremenda, enorme, desmesurada de você.
Egoísta. Você acha certo sumir assim? Me deixar plantado nesse sofá velho, enchendo-me de álcool e nicotina, esperando por um telefonema, um telegrama, um alô, um “voltei”? Me invade a imagem de você abrindo a porta da sala - toda delicada, toda bonequinha – e dizendo que só foi dar uma volta, que não queria ter falado aquelas coisas todas, que não iria me abandonar de verdade. Então o ambiente ficaria mais quente e mais iluminado com a sua presença, e a tua silhueta bem desenhada seria a única coisa que meus olhos enxergariam... Pois é, ainda te vejo chegando em casa depois do trabalho e jogando as sapatilhas coloridas no chão, colocando um moletom velho e se esparramando na poltrona com seu livro preferido e uma xícara de chocolate quente. Ainda te vejo acordando todos os dias ao meu lado e fazendo do meu braço o seu travesseiro, ainda vejo a luz perolada que exalava do seu rosto bem desenhado quando você aparecia do nada e sorria para mim. Ainda te sinto aqui, agora, bem pertinho de mim, dando sua risada bonitinha e medonha enquanto eu me recordo de tudo isso.
Sabe, eu não acreditava que o seu desleixo e desatenção pudessem chegar ao ponto de me esquecer, de me deixar na mão de quem quer que fosse, de sair de malas prontas sem dar tchau. Nem que um dia você não estaria deitada no meio das minhas coisas, que não acordaria descabelada vestindo somente a minha camisa de flanela tamanho G, que um dia você deixaria de derramar café nos meus lençóis limpos e amassados. Sei lá, talvez a culpa não seja inteiramente sua. Talvez a culpa seja minha por ter sido tão ingênuo. Eu errei em ter te colocado no pedestal da minha vida. Você errou em não ter permanecido por lá.
Como a gente faz pra dizer a alguém muito especial: Não me abandone, volte pra mim, fique o quanto quiser, preciso imensamente de vo-cê? Provavelmente você já está longe, dirigindo seu Maverick amarelo, com um braço pra fora da janela e o outro descansando no volante, os olhos verdes no horizonte, os cabelos que você tanto cuida ao vento, descabelados, sem preocupações, como você. Talvez já esteja ouvindo sua rádio preferida enquanto dirige sossegada, talvez seus lábios de rubi estejam cantando Smells like teen spirit enquanto eu trago meu último cigarro, com meu copo de whisky barato já pela metade e o vestido que eu te dei e que você deixou pra trás nas mãos.
Você partiu. Você partiu e já cativa outros olhares em outros lugares, enquanto eu continuo aqui, no mesmo sofá, pensando em como você foi tanto, é tanto e continuará sendo. Só agora entendo que tudo isso fazia parte do seu plano de se ver livre e feliz, de voar pelo céu azul do mundo e sobrevoar a vida, sendo guiada somente pelo vento harmonioso que balança seus cabelos e não a deixa aterrissar. Seu plano de gente, seu plano de espírito, seu plano de mim – o mesmo que você anotou no seu bloquinho cor-de-rosa e que guardou na sua penteadeira bagunçada, no meio das suas muitas maquiagens - como uma meta a cumprir. Talvez você não esteja dirigindo seu Maverick amarelo, mas esteja voando por sobre as casas, as árvores, as pessoas, por sobre mim. Quem sabe? Não se sabe.
É verdade que você me deixou e não foi por culpa do destino, nem do tempo, nem de Deus: Foi você, com seu coração de gelo e jeitinho de princesa, que pensava no seu plano de voo enquanto eu só pensava em ti.
Você mudou a minha vida, você mudou cada segundo e milímetro e pedaço da minha triste vida, mas eu não mudei nem uma palha da sua, porque tudo em você é tão maior e tão melhor e tão mais bonito do que eu. Você foi tudo, você sempre foi tudo, mas eu não fui nada, nem incômodo eu causei. É que você foi como um dilúvio na minha vida e eu fui só uma garoa fraca na sua. Contradição: É muito tudo pra muito nada. Você me entende?
Ao menos leve em conta o meu tempo desperdiçado e faça uma coisa por mim: Fique bem. Não precisa voltar e me dar mais uma pitada de carinho, como se eu fosse um cachorro faminto te esperando na esquina, atento aos seus passos, sedento de sua atenção. Não, não volte: fique por aí. Viva, ria, voe. Voe o máximo que você puder. Viva tudo o que tem para viver. Cative outros corações, arranque outros sorrisos, outros suspiros, outros olhares. Você sabe que é ótima nisso. Eu vou ficar bem. Eu estava bem antes de te conhecer e vou ficar bem agora que você foi embora. Não precisa me devolver o casaco que ficou com você naquela noite fria: Fica. Guarde o meu casaco, guarde meu cheiro, guarde minhas recordações, guarde meu toque, meu abraço, meu beijo, guarde meu co-ra-ção. Eu vou continuar por aqui mesmo, bebendo meu whisky, fumando meu Marlboro e lembrando de você, que me abandonou: você: louca varrida, doida de pedra, coração de gelo, meu amor.
Eu vou cuidar de mim. Só me faça um último favor: Cuide de você também.

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