quarta-feira, 25 de julho de 2012

Myopia


Era míope: não enxergava a realidade a um palmo de distância. Encarava as caras amarradas das pessoas no ponto de ônibus e só via apatia – não imaginaria, em sua santa inocência, a sujeira acumulada nos pensamentos dos corpos à sua volta. E nem queria: deixava, propositalmente, os óculos que tanto odiava jogados no fundo da bolsa.
Era míope e não enxergava o amor que pairava ao seu lado na avenida movimentada. Presa em sua pressa ilimitada, já depois de pegar o ônibus lotado, caminhava de pés descalços por entre o aglomerado de pessoas atrasadas, olhando de si para si mesma. Não avistara o par de olhos que a observavam – não avistara, em sua ânsia de myopia, o que lhe fora prescrito pela vida.
Era míope, coitada, e não era capaz de viver. Preferia deixar os óculos no fundo da bolsa ao enxergar a realidade, aquela realidade grotesca que fumava um cigarro à sua direita, tentando lhe chamar a atenção. Não – continuava andando todos os dias apressada, ignorando a rua de vida que estendia-se à sua frente, a fim de desfazer-se sem compromisso do que chamava de destino.
De sua visão prolixa e bagunçada: eis que agora, num domingo estarrecido, na madrugada que não a deixa dormir - ela caminha em silêncio pelo quarto cor-de-rosa, com os óculos de lentes grossas em seu rosto pequeno e magro. É doida: ela enxerga por si só e quando lhe convém.
"É que aqui, em meu quarto desarrumado" - apronta-se a dizer, a voz fina arranhando a noite silenciosa - "Aqui tudo é o que é – e nada é de verdade".


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