Até onde as linhas das mentes mais instruídas alcançam, temos a constatação de que beleza é terror. Afrontam-nos o desejo e a necessidade de se arrancar as normalidades e renascer na forma mais crua possível, evitando as bordas da sensatez: mergulhar naquilo que se encontra apenas no âmago das mentes mais prolixas. Trazendo as palavras de Freud em relação ao ID: "Nós chamamos de (...) um caldeirão cheio de excitações fervescentes." Derrubemos o caldeirão, então. Banhemo-nos em nossa própria loucura! Deixemos de lado o ego e o superego e sejamos tomados pelas pulsões do nosso inconsciente... Somos tão diferentes dos gregos antigos, a ponto de que alcançar a loucura divina seria absurdo? Até que ponto seríamos capazes de perder o controle e assassinar a nossa mortalidade, ignorando a razão e a moral, a fim de nos tornarmos por inteiros prisioneiros dos instintos do nosso ID, a parte mais primitiva e menos acessível da personalidade? A loucura em sua forma mais cruel pode ser fascinante aos olhos de quem enxerga a verdadeira beleza. Porque beleza, em sua veracidade, é terror.
Desejamos, como as árvores esquizofrênicas que açoitam lá fora, ser devorados pela beleza, dissolver nosso ego no fogo que nos refinará - e tornarmo-nos tão vítimas do laranja como foi Van Gogh em seu ápice da loucura. A beleza raramente é suave e pura, ela geralmente nos assusta. Por isso a ideia de estraçalhar a estrutura dos egos mortais é, nas mentes mais evoluídas, tão sublime. O ser em sua plenitude, a libertação do habitual: viver por completo, sem as limitações da moralidade. Rasgar o véu e olhar direto para a beleza nua e terrível? Nos sujeitar a sermos nós mesmos até um nível insuportável? Usar do poder das fúrias ao levar as pessoas à loucura, aumentando o volume do monólogo interior e ampliando as características inatas ao exagero? Parece assustador, mas isso não é exatamente do que a beleza se trata?
A beleza, veja bem, quase nunca está associada à simplicidade das limitações rotineiras. O belo é insólito - a verdadeira beleza é o que julgamos ser tão extraordinário a ponto de nos causar arrepios. O que nos causa horror é também a forma mais aguda de felicidade - os dois andam lado a lado, o que os difere são as circunstâncias que os envolvem.
A loucura do nosso ser nos aguarda silenciosamente, até o dia em que procuremos chamar por ela. Como as Mênades, com suas cabeças viradas para trás, os cabelos deslizando pelo chão – mais que humanas – em sua personificação de loucura: Consumidas durante o transe em suas danças sanguinárias, as gargantas gritantes voltadas para as estrelas; Devoradas, descarnadas – e depois devolvidas em sua purificação. O ápice da loucura presenciado e redobrado, morte-renascimento, o contato mais improvável com o próprio eu.
O âmago da nossa própria insanidade talvez permaneça nas páginas antigas da mitologia até que a percepção daquilo que se esconde em nossa obscuridade seja aguçada - e adociada. Se olharmos para dentro de nós mesmos, veremos que a loucura é uma das várias representações da beleza. Pintemo-nos de laranja, então: adotemos a cor da insanidade – e banhemo-nos dos desvarios que moram dentro de nós.
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