terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Da vida à aurora


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Poética - Vinicius de Moraes


1


Aquele dia não me era estranho. Tudo o que vinha ocorrendo desde que eu acordara, naquela terça-feira nublada, também se repetia por todo o país e durante milhares de ano.
Enquanto eu andava pelas ruas esburacadas de São Paulo, tentava desviar os olhos das luzes de natal que enfeitavam as vitrines das lojas, as janelas das casas e dos prédios, as árvores da rua... O meu roupão azul escuro se arrastava pelo chão, e por baixo dele eu vestia um pijama largo, confortável – e completamente inadequado para sair na rua – além de chinelos de dedo dois números maiores que os meus. As pessoas que andavam na rua, com suas sacolas cheias de presentes e seus cartões de crédito estourados na bolsa, me olhavam torto, como se não acreditassem no que viam. Porque diabos aquela jovem não está gastando seu salário inteiro nessas grandes e enfeitadas lojas?
Acendi um cigarro enquanto virava uma esquina movimentada. As pessoas deviam estar correndo atrás dos últimos preparativos para aquele dia: comprando os ingredientes que faltavam para a grande ceia, ou aquele presente que esqueceram de comprar para um parente distante, que ninguém nunca se lembrava. Já eu, só saíra do meu apartamento minúsculo porque precisava de um isqueiro.

De volta ao meu prédio cor-de-tijolo, peguei a chave do bolso do roupão e abri a porta com um empurrão. Tudo estava exatamente do jeito que eu deixara: O sofá desconfortável perto da televisão pequena, o tapete vermelho que eu ganhara da minha mãe quando me mudei para cá, o cinzeiro cheio na mesinha de centro, as roupas jogadas pelo chão, cheiro de arroz queimado... Corri para a cozinha para desligar o fogão quando percebi que a luz da caixa de mensagens do telefone piscava. Depois de desligar o fogo, abrir a tampa da panela e concluir que seria melhor fazer um miojo, apertei o botão para ouvir a mensagem de voz.

Filha, seu pai e eu ainda não entendemos porque você preferiu passar o Natal sozinha e não aqui com a sua família. Nós sabemos que a faculdade está lhe tirando bastante tempo, mas uma época como essa você devia passar com a sua famíl...

Aquilo era o que vinha acontecendo durante toda aquela semana. Nunca entendi a fascinação das pessoas com o Natal, afinal é apenas mais um dia comum a não ser pelos enfeites exagerados e pela hipocrisia redobrada . Preferi excluir a mensagem ao invés de ouvi-la até o final – já sabia tudo o que a minha mãe iria falar. Decidi que mais tarde ligaria para ela e desejaria feliz Natal, falaria que estava bem e que não estava passando o natal sozinha, muito pelo contrário... Eu não estava mesmo... Estava?
Fariam quase seis meses que eu havia saído de casa. Depois que passara na faculdade, fiz minhas malas, dei tchau para Minas Gerais e me mudei para o centro de São Paulo com um sorriso de orelha a orelha. Consegui alugar um apartamento simples – até demais – e que ficava apenas a alguns quilômetros do Campus, e desde então só havia voltado para casa duas vezes. Em primeiro lugar, porque a viagem era cansativa demais. Depois, precisaria gastar um dinheiro que não tinha. E por fim, odiava as reuniões de família que meus pais faziam quando eu voltava para casa. Não que eu não gostasse da minha família – eles eram ótimos – eu apenas não me sentia bem sendo o centro das atenções. E no Natal as coisas seriam dez mil vezes piores, com toda aquela decoração, aquelas músicas com sinos, os homens imitando a risada assustadora do Papai Noel, aquelas crianças bobinhas perguntando a cada cinco minutos se poderiam abrir os presentes, as tias gordas querendo saber sobre os “namoradinhos”... Namoradinhos uma ova.
Havia outra mensagem. Dessa vez não era a minha mãe, e eu poderia reconhecer aquela voz de longe.
Uma respiração rápida e ofegante. O barulho de alguma coisa caindo. Ah, ele estava bravo, eu sabia, já esperava por aquilo.

“Você não vai fazer isso comigo, sua...”

Tem certeza que deseja apagar todas as mensagens? – A voz feminina perguntou. Sim, claro que tenho. Depois, arranquei o fio do telefone. Ninguém mais iria me incomodar.

2

Começava a escurecer, e eu estava sentada no sofá envolta em um edredom cor-de-rosa. Uma panela com o resto do miojo que sobrara do almoço estava na mesinha de centro, junto com uma garrafa de Vodka quase pela metade, o cinzeiro amontoado, um livro que decidira ler há quase um mês, mas não conseguia terminar, e algumas latinhas de cerveja amassadas. Com o controle na mão, eu mudava de canal radicalmente. Filme de natal, programa de natal, comercial de natal, filme de romance – argh! – filme de natal, canal do boi... Desliguei a televisão enquanto enchia o copo vazio de Vodka pela terceira vez. Odiava beber aquilo puro, mas não havia nada na geladeira que eu pudesse misturar. Tampei o nariz e bebi de um gole só. Parecia que a minha garganta queimava.
A janela da pequena sala refletia as luzes dos pisca-piscas da cidade. Eu estava sozinha naquele prédio, tinha quase certeza – uma vez que ele era tomado por universitários, e estes estariam com suas famílias naquele momento. Uma lista de nomes passou pela minha cabeça, mas pensei duas vezes antes de ligar para alguém. Iria soar muito solitário e, além disso, eu estava bêbada.
As coisas giravam lentamente, e eu senti uma vontade súbita de chorar que quase se concretizou. Fechei os olhos por um segundo, e no instante seguinte, não sei se minutos ou horas depois, aquela silhueta masculina e familiar se aproximava com a expressão que já lhe era tão típica no rosto: Uma arrogância levemente disfarçada. Vestia uma camisa pólo branca e bem passada, calça jeans de marca, sapatos pretos caríssimos, um blazer esportivo escuro e elegante. Os cabelos, bagunçados propositalmente. Como ele entrou aqui?

- A porta estava aberta – Disse, se aproximando. Ele se ajoelhou para que ficássemos cara a cara, uma vez que eu estava deitada no sofá. Sentia-me fraca e enjoada – e com vergonha por ele me ver naquele estado. Não que eu me importasse. – Sabia que estaria aqui. Não quis deixar que passasse o Natal sozinha. Eu não consegui te ligar para avisar, então...
- Foi uma escolha minha passar o Natal sozinha. Tinha o propósito de não ter companhia nenhuma hoje.

O olhar dele me dava raiva, parecia um cachorro abandonado.

- E porque é que você se deu o trabalho de vir até aqui, afinal? - continuei - Ainda mais depois da mensagem carismática que me deixou hoje. Não passou pela sua cabeça que talvez eu não queira te ver? Porque você sempre precisa fazer isso? – Eu me sentei abruptamente, ignorando a sala que girava à minha volta. – Deixei claro que não queria que você me procurasse mais.

Bingo! Quem sabe depois daquilo ele iria embora de vez? Uma das coisas boas em beber é que você nunca poupa palavras.
Mas ele não respondeu. Eu já previra a reação dele, era ótimo em ignorar as pessoas. Nunca vi gente mais mimada e egoísta! Eu o encarei enquanto ele, por sua vez, encarou a garrafa quase vazia de Vodka que estava acima da mesinha de centro. Eu o conhecia o bastante para saber que, ao contrário de muitas outras pessoas, ele não iria me chamar a atenção por aquilo, por estar embriagada. Levantou-se, sentou-se ao meu lado no sofá e bebeu a Vodka direto da garrafa. Fez uma careta, e eu sabia que não era pelo gosto forte. Ele era o tipo de pessoa fã dos destilados, dessas preferem uma boa dose de uísque puro do que uma lata de cerveja.
- Essa Vodka é horrível. – Comentou.

Odeio ele.
Quando dei por mim, estávamos os dois assistindo um desses Especiais de Natal que nos deixam depressivos. No fundo, éramos praticamente iguais. Duas pessoas profundamente decepcionadas com a vida e embriagadas, solitárias, arrogantes e “do-contra”. Se não fosse pelo dinheiro que ele tinha e eu não e pelo pênis que ele carregava no meio das pernas desde que nascera, poderíamos ser a mesma pessoa.
A briga de hoje foi costumeira. Mas ao contrário de sempre, eu falei sério quando disse que não o queria mais na minha vida. Duas pessoas tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo são um perigo. Anotei mentalmente dizer tudo o que pensava para ele na manhã seguinte, apesar de que sabia que ele não desistiria assim tão fácil. Não estava acostumado a ser rejeitado, o coitado, e provavelmente apareceria na minha porta com uma caixa de chocolates ou, quem sabe, um smartphone novo.

3

Meia-noite. As pessoas provavelmente estavam se abraçando e desejando feliz natal uns aos outros naquele instante, meus pais provavelmente estariam tentando me ligar enquanto eu deveria estar tentando ligar para eles. No meu apartamento, a televisão estava desligada, o único som era o da nossa respiração e da música ruim que tocava no rádio. Havíamos acabado com a garrafa de Vodka, e ele acendera um de seus charutos. Fumávamos em silêncio, sem pensar nem por um momento em desejar feliz natal um ao outro. Eu o observei por um instante tirar a franja do olho, limpar o suor da testa, olhar nos meus olhos e passar o charuto para mim. Dei risada, não que tivesse sido algo engraçado, mas por conta da situação. Ele também deu risada, enquanto contornava o formato do meu rosto com os dedos.
Longe dali, escutamos alguns poucos fogos de artifício. Estávamos os dois deitados na minha cama, e eu não fazia ideia de como fomos parar ali. A embriaguez nos havia consumido por completo, e flutuávamos em meio a fumaça densa e branca do charuto.

***

Ele roncava. Eu, por outro lado, não conseguia dormir. Parecia que o álcool tivera o efeito contrário em meu corpo, como se eu tivesse tomado café no lugar da vodka. Virei de frente para ele: Sem camisa, a franja caindo no olho, a boca entreaberta. Estava engraçado, mas sexy. Dei um risinho baixo, com medo de acordá-lo. 
Lentamente, enquanto o observava, comecei a me arrepender. Estava me sentindo desconfortável, não queria ter chegado àquele ponto. Era verdade que não queria mais vê-lo, e pelo jeito nem eu mesma me levava a sério. Decidi virar de costa para ele, deixar de encará-lo, quem sabe até esqueceria o formato de seu rosto. Mas então, ele passou um braço por minha cintura e me abraçou. Enrijeci os músculos, tive vontade de gritar.
Eu sabia o porquê daquilo tudo, afinal. O fato de que eu estava bêbada fora apenas um ingrediente a mais. Eu também me sentira só. De uma forma ou de outra, eu ansiava por companhia, nem que fosse a dele. Isso tudo me fez ignorar o que eu já tinha em mente – "ele é patético, mas é bonito, rico e veio até aqui hoje, por mim. Não importa o fato de que eu sinto vontade de estrangulá-lo até a morte, ou de que nesse instante eu quero sumir e nunca mais aparecer."
Submissão.
Resolvi me levantar. Dei uma olhada no espelho antes, só para ter certeza que estava ao menos apresentável. Não estava, mas também não me importava. Saí de pijama mesmo, descalça, fechei a porta atrás de mim com cuidado. Nem olhei para trás.
Era madrugada, um tempinho gostoso, o ar poluído de São Paulo quase parecia puro. Não havia ninguém nas ruas para me olhar torto, mas de um modo estranho eu desejei que houvesse. Do outro lado da rua, havia um banco de madeira polido, simples, que ficava em uma praça pública mal localizada. E as luzes de Natal ainda brilhavam.
Foi ali, enquanto atravessava a rua a passos mudos e com os pensamentos em qualquer lugar que não aquele, foi ali que me deparei com um verdadeiro impasse da vida, desses que te pegam pela orelha e te arrastam por estradas escuras e infinitas. Através do clarão que poderia ser um farol, eu já não me vi.
Deixei de existir tão rápido quanto me embriaguei, ou quanto dormi com ele, ou mesmo tão extraordinariamente rápido como quando ele chegou no meu apartamento pequeno naquela tarde, assim do nada, de um jeito idiotamente elegante. Eu apenas dormi sem desejar feliz natal, Merry Christmas... Ou mesmo Joyeux Noël
A vida simplesmente escureceu.

"Ó doçura da vida: Agonizar a toda a hora sob a pena da morte, em vez de morrer de um só golpe."
                                                         William Shakespeare

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