quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Uma noite Cecília

E devoro a minha alma enquanto mergulho nas palavras de Cecília Meireles, na solidão de uma noite sem fim, e que no entanto já está quase no fim. "Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acaba todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer. E então serás eterno." 
O medo do fim. - Que será o fim? - Eu penso, enquanto acendo um cigarro. Dou a primeira tragada com força, sugando a fumaça densa para os meus pulmões escuros. Depois a solto, e ela sobe leve, mansa, com sua branquidão quase transparente. - Que será o fim? - Penso. E então dispenso. Dispenso o ato de pensar - e aí está o fim de um pensamento. Mas não é um fim, pois logo disparo a pensar novamente. E quando a gente sabe que alguma coisa realmente chegou ao fim? Ela pode retomar de onde parou a qualquer momento. Como o meu pensamento, como alguém que saiu de sua vida para nunca mais voltar, mas que você encontra num dia chuvoso na esquina de um bar. Como um Adeus que não é pra sempre, ou a morte de um sentimento que na verdade nunca te abandona. O fim só é fim quando não se é esperado. 
"... Eu te esperei todos os séculos, sem desespero e sem desgosto, e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto..." A cinza do cigarro está comprida, e já não me resta nada além de uma última tragada. Fecho os olhos por um instante, não tentando imaginar nada, mas tentando me posicionar. No mundo, talvez. Em mim mesma? Não sei. Mas permaneço de olhos fechados, imóvel na sala escura e vazia. Sempre o mesmo rosto. E ele aparece abruptamente, como se tivesse escutado seu nome. Não tento afastar sua imagem, pois apesar daqueles traços me causarem desconforto, é um desconforto que me conforta. Eu te esperei todos os séculos. E continuo esperando, eu penso. Sentada aqui e agora, espero um telefonema, um telegrama, uma carta, um alô, um Adeus, um abraço, um beijo. Espero, e espero, e continuo esperando o dia em que o fim retome de onde parou com letra maiúscula. E então escreva mais um parágrafo. Grande, de preferência.
"Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica os teus braços, para semeares tudo. Destrói os olhos que tiverem visto. Cria outros, para as visões novas. Destrói os braços que tiverem semeado, Para se esquecerem de colher. Sê sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre longe. E dentro de tudo." Quero um café. Então me lembro da xícara que havia esquecido ao meu lado, em cima de uma montanha de livros. Tomo um gole, faço uma careta - Café frio e amargo. É o que se resume tudo isso, na verdade: A frieza e o amargor, unidos, cercando toda uma vida vazia. "De longe te hei de amar, - da tranquila distância em que o amor é saudade e o desejo, constância." Está do outro lado da rua, e no entanto é como se estivesse no outro lado do mundo. Queria eu poder atravessar a rua, pegar tua mão e caminhar até onde nossos olhos não podem ver. Queria eu poder amar-te não de longe, nem de perto, mas de todo. "Quero uma solidão, quero um silêncio, uma noite de abismo e a alma inconsútil, para esquecer que vivo, libertar-me das paredes, de tudo que aprisiona; atravessar demoras, vencer tempos pululantes de enredos e tropeços, quebrar limites, extinguir murmúrios, deixar cair as frívolas colunas de alegorias vagamente erguidas. Ser tua sombra, tua sombra, apenas, e estar vendo e sonhando à tua sombra a existência do amor ressuscitada. Falar contigo pelo deserto." Chove lá fora, e não havia percebido. Ultimamente vivo como quem não vive, e me disperso, e me deixo levar. Estou à mercê da vida, e subsisto conforme os dias, atravessando os séculos sem nem me dar conta. Esta noite em si é pura, como no poema de Cecília - Solitária, silenciosa. E quase esqueci que vivo, e quase me torno liberta. Mas o que me aprisiona é aquele pelo qual eu viraria sombra. É aquele pelo qual eu amaria de longe. É aquele pelo qual eu renasceria em mim mesma. É aquele pelo qual eu esperei todos os séculos. E é aquele que me empurra o medo do fim goela abaixo, pois ele é o fim em questão. 
Eu morri de amor e nem havia me dado conta!





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