Alguma coisa me incomoda. E dessa vez não é nada dentro de mim.
Andei pensando em como vivo - em meus dias longos e incompreensíveis, em minhas noites curtas e, ao mesmo tempo, tão insuportavelmente intermináveis. No prego e no martelo que usaram para pregar a sua imagem na minha cabeça, e você no meu coração. Na gana que cresce dentro de mim, alimentada pela sua ausência, e que vai tomando mais espaço e proporção conforme o tempo passa sem você. Andei pensando em como a monotonia invadiu os meus dias, cheia de domínio sobre mim; e em como a insipidez da minha vida se tornou a única coisa que me difere do insignificante. Eu estou repleta de meios-termos, e tomada pelo inacabado.
E assim eu vivo.
Vivo com a certeza de que sou aquilo que foi deixado de lado para ser terminado depois, e, consequentemente, esquecido numa gaveta qualquer. Estou esperando pelo dia em que alguém abra a gaveta da minha vida e me encontre. Que tire o pó acumulado em mim e que me coloque cuidadosamente numa estante, mas que não me deixe apodrecer no fundo dessa gaveta.
Eu vivo com a certeza de que aqui e agora não está sendo um bom lugar para se viver, porque existe algo tão extremamente grandioso incomodando a minha alma. Vivo com a certeza de que não vivo, mas existo - e existo de uma forma indubitavelmente irrelevante. Vivo com a certeza de que essa gaveta que me esconde, se encontra em algum lugar abandonado, esquecido, e que talvez nunca me encontrem.
Estou tão perdida, que a minha única certeza é não ter certeza de nada. Porque eu sei apenas o que não sou, apenas o que me falta, apenas o que me incomoda. Não faço ideia do que me preenche - é como se as minhas incertezas fossem as únicas coisas das quais eu tenho consciência. E sem ter certeza de nada, mas tendo certeza de tudo - já que o meu nada tornou-se tudo o que sou - eu vivo.
Acordo de manhã, me infiltro na monotonia dos meus dias, danço ao lado da minha paz rotineira. E aguardo obedientemente dentro da minha gaveta, apenas esperando. Um tanto apavorada, um tanto consternada, mas nem um pouco segura. Porque algo me diz que ainda tenho muito o que aguardar...
Mas, em minha alma, em meu coração, alguma coisa me incomoda.
Acho que é a falta que eu sinto de você.

Muito bacana, gostei mesmo do texto. Da comparação a algo interminável, dá mesmo um sentido triste e melodramático. O primeiro parágrafo, boa parte dele me fez pensar na minha namorada. Em como ela também ficou marcada em minha vida, e não sai mais dos meus pensamentos. Gostei. Boa escrita, boa conduta.
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