Mas há essa ampulheta em minha vida.
Ela me encara, enquanto a areia fina desliza rápido o bastante para me provocar uma dor lancinante no fundo da alma. É como se dissesse que o tempo tem pressa, e que ele não vai esperar por mim. Mas eu, eu preciso dele.
É difícil explicar, mas é mais ou menos assim: Você está bem. As coisas à sua volta estão acontecendo, os problemas estão acontecendo, tudo está acontecendo - o mundo está rodando, e você está vivendo. Vivendo bem. E então, de uma hora para outra, por causa de uma pessoa, ou de uma situação, ou de um sentimento, ou de qualquer outra droga que a vida lhe joga na cara, você tropeça e cai. E você cai em um poço - um poço escuro, desses sem fim. E você vai caindo e caindo, e tenta se segurar em alguma coisa, mas suas mãos nunca seguram suficientemente forte, e escorregam. E você nunca pára de cair. Às vezes acontece alguma coisa, e você acha que uma chama fraca está começando a se acender, ou que existe uma luz piscando lá no fundo. Mas então você vê que nada é forte o bastante para fazer alguma diferença - nem a chama, nem a luz. E assim, desse jeito, você continua caindo, caindo, caindo. E nunca chegando à lugar algum. E nunca conseguindo se segurar em nada. E sempre vendo uma chama ou uma luz... Mas não que isso faça alguma diferença, porque você nunca pára de cair.
É assim: Eu, um poço e um amor. E uma ampulheta, que continua sempre a me encarar. E um punhado de areia, que assim como eu, continua sempre a cair. Lenta, rápida, torturante... Marcando o início da tão temida ausência.
Vida! Não me faça caminhar por entre as ruas do desconhecido, com a única certeza de que logo estarei perdida. Eu já sei, não precisa me dizer: No final, o que queremos continua sendo apenas o que queremos, e permanece esquecido lá nos fundos de uma gaveta empoeirada. Porque aquilo que é mais importante para nós mesmos, pode não ser o mais importante para as garras afiadas e sem piedade da vida.
É estranho viver sabendo que isso está prestes a acabar. Eu observo de longe aquela ampulheta, relutando chegar mais perto por medo de sei-lá-oquê. Observo o tempo passar, o meu tempo passar, e não sei se fico feliz ou triste. Às vezes é um alívio pensar que está acabando. Mas ainda há alguma coisa dentro de mim que insiste em negar qualquer tipo de fim - há muita coisa, na verdade; aí esse sentimento de saudade precipitada me invade, e se mistura ao medo, à tristeza, ao sofrimento e à verdade, a tão temida verdade, que me atinge com um tapa na cara e um sorriso sarcástico, dizendo "Tá vendo? Quem mandou se apaixonar?"
Eu seria eternamente feliz se o tempo passasse, mas que não levasse embora pedaços de mim. Que não me deixasse sozinha em um futuro vazio, chorando por um passado esquecido, e sendo atormentada por fantasmas daquilo que me fez sorrir tanto quanto me fez chorar. Daquilo que me deixou sozinha numa esquina qualquer, na tempestade gélida, sem casaco nem guarda-chuva, enquanto caminhou sem olhar para trás e pegou o primeiro táxi que apareceu.
E o destino, seria bom se o destino agisse a meu favor. Que me pregasse uma peça, que me fizesse uma festa surpresa. Que escolhesse as situações exatas e me colocasse nelas. Que escolhesse as pessoas certas e me envolvesse com elas. Que me mostrasse uma realidade diferente. Talvez assim aquela chama e aquela luz fossem fortes o bastante para me aquecer, para me tirar do escuro, e para me mostrar como é não viver sempre deslocada por causa desse poço idiota. Por causa desse amor idiota. Por causa de você, por causa de mim. Por causa de tudo.
Sinceramente, cansei dessa deslocação contínua. A partir de agora, vou tentar me encaixar. E que me venha uma base sólida abaixo de mim, para que eu possa cair, me machucar, levantar e começar de novo.
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