Eu sempre penso que as coisas não vão acabar por aqui. Quando se trata de algo muito bonito, muito grande, muito sincero, nunca acaba. Pode ser diluído na água do tempo, pode perder-se nos caminhos da incerteza, ou pode permanecer guardado - ou jogado - debaixo da cama, esperando que alguma coisa forte o bastante aconteça para que seja possível puxar para cima o que estava escondido. Alguma coisa como um reencontro, quem sabe. Alguma obra do destino, talvez. Uma brincadeira dessas ingênuas que a vida nos prega de vez em quando.
Eu sempre penso que um dia a gente pode voltar a se encontrar. Daqui a muitos anos, quando já estivermos casados com outras pessoas, e andando com a foto dos nossos filhos na carteira. Numa rua, numa calçada, num elevador - a gente se encontra. E demora algum tempo para nos reconhecermos - alguns minutos, no máximo. E então ficamos olhando um para a cara do outro, com um sorriso idiota no rosto e um pensamento do tipo "Nossa, como você está diferente". E nesse meio tempo, as lembranças invadem nossas cabeças como um filme - os sorrisos, as brincadeiras, as piadas, as palavras - escritas e faladas - os sentimentos - sentidos e rejeitados, os bons momentos - e os mais embaraçosos. E esses pensamentos nos desperta algo forte, uma mistura de saudade com paixão e com sei lá mais o que. E esse algo forte faz o nosso olho brilhar, e o coração disparar, e o sorriso sair naturalmente, e as palavras "Eu senti a sua falta" se formarem em ambas as bocas sem que nos demos conta. Assim, espontânea e naturalmente. E então a gente se abraça, e eu sinto o seu cheiro. BUM - explosão de lembranças. E você sente o meu perfume. BUM - mais lembranças. E eu sinto o seu abraço, e você toca o meu cabelo, e eu fecho os olhos e respiro fundo, pensando que nunca deveria ter acabado daquela forma. E nós ficamos abraçados por alguns minutos, vivendo momentos que não voltam, porque já foram ultrapassados, e nada mais são que meras lembranças. Lindas lembranças, maravilhosas lembranças, mas ainda lembranças.
E então nós nos separamos, e como se tivessem desligado a televisão, o filme de nossas vidas acaba, e nós voltamos para a realidade. Eu me lembro de que estou casada, e de que tenho dois filhos lindos. E você se lembra de que está casado, e que também tem filhos lindos. E então eu olho para você mais atentamente, e pergunto o que você andou fazendo da sua vida. Você me fala que está escrevendo, e que seus sonhos se realizaram. Eu me encho de orgulho, e fico com vontade de te dar outro abraço, mas desisto. Você fala da sua esposa, e me mostra a foto dos seus filhos. Eles são lindos, eu penso. O menino tem seus olhos - o mesmo olhar sincero, um tanto melancólico, um tanto misterioso, um tanto rude, mas sincero. Os mesmos olhos, o mesmo olhar - um olhar escondido por trás das grossas lentes de um óculos. Então eu olho novamente para você, e fico com vontade de dizer tantas coisas, de resolver tantas coisas - coisas que foram deixadas para morrer, coisas que foram enterradas incompletas - um buraco preenchido apenas pelo inacabado. Porque a gente deixou aquilo se perder? Porque deixamos algo tão belo morrer? Eu penso. Penso, mas não digo. Ao invés disso, retribuo seu olhar, e no exato momento em que nossos olhos se cruzam, você tenta dizer alguma coisa, você quer dizer alguma coisa, mas você não diz. Você apenas sorri. E então eu sorrio de volta. E eu vejo que essa coisa elaborada pelo destino me está escapando, está querendo fugir denovo. Eu não quero deixá-la fugir, eu tento alcançá-la, mas é tão mais alto que eu, e tão mais forte que eu, e tão maravilhoso, e tão perfeito, que eu não consigo fazer nada. Eu tento, mas tudo o que eu faço é encará-lo com o mesmo olhar apaixonado de tantos anos atrás. O mesmo olhar que me denunciava, e o mesmo sorriso bobo, e por um momento, as mesmas expressões de admiração, as mesmas de uma pessoa que assiste à um espetáculo magnífico. As mesmas de uma pessoa cega de paixão.
E você olha para um lado, e eu olho para o outro. E acaba, e a coisa foge, e me escapa mais uma vez das mãos.
É quando o táxi chega, ou o meu celular toca, ou a porta do elevador se abre, e eu preciso dizer que tenho que ir. E você diz que você também precisa ir. E nós nos damos outro abraço. BUM - e somos mergulhamos em mais uma explosão de lembranças recém desenterradas. E nós nos separamos, e essas lembranças se acabam.
E você se despede de mim, e caminha do lado contrário. Você olha para trás uma vez, nós trocamos um sorriso, e então você continua andando, e andando, e andando, e vai se perdendo no meio da multidão, e vai desaparecendo aos poucos, e some, e desaparece, e vai embora, e vai para longe de mim, mais uma vez. E eu continuo parada, pensando que seria idiotice deixar para lá um reencontro como esse, preparado pelo destino. Mas que seria ainda mais idiotice ir atrás de você, porque nossas vidas tomaram rumos diferentes. Então por fim eu deixo ir. Viro as costas e tomo meu táxi, ou atendo meu celular, ou vou para qualquer lugar para longe de você. E depois disso o tempo passa, e nós nunca mais nos vemos.
E nada mais nos resta além de mais lembranças - dessa vez as lembranças de um reencontro. Um reencontro simples, bobo, mas que por um momento fora capaz de trazer à tona sentimentos há tanto tempo escondidos, jogados e esquecidos debaixo da cama.

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