Que vida incompleta, a minha. Desnecessária. Pouco a pouco eu fui sendo submergida pelo grande vácuo do inacabado. É como se eu fosse apenas um corpo. Não um corpo absolutamente vazio: Um corpo com coração; Aliás, um coração que se perdeu no meio da complexidade do amor.
Foi mais ou menos assim: Pegaram-me pelo braço, vendaram meus olhos e me jogaram no mundo: Pronto. Se vira. Então eu encontrei você: Um retrato do mais profundo eu. E foi como se o tivessem feito sob medida, especialmente para completar o quebra-cabeça da minha vida. Mas enquanto você não segurar a minha mão e assumir o risco, enquanto você não se jogar de corpo e alma nessa coisa que eu estou sentindo - e que você pode chamar de amor, se quiser - enquanto isso não acontecer, esse quebra-cabeça continuará incompleto. E então eu continuarei incompleta.
Às vezes sinto como se o destino sentisse preguiça de trabalhar, e estivesse fazendo um trabalho sujo e mal feito comigo. Mas eu estou acostumada, para falar a verdade. Estou mesmo. Os meus dias, que nunca passaram de "normais", eu os aceitava. Os meus erros, que sempre foram vergonhosamente idiotas, eu os aceitava - e aprendia com eles. As minhas decisões, que sempre foram de última hora, e na maioria das vezes, errôneas, eu as aceitava. As minhas paixões, que sempre foram verdadeiras e nunca recíprocas, eu as aceitava. E assim, aceitando a felicidade incompleta, eu aprendi a viver. (De olhos vendados e jogada no mundo pelo braço, devo ressaltar).
Erro meu. Acredito que nós não fomos feitos para aceitar o que nos é estipulado - nem mesmo se for estipulado pelo sr. Destino. Nós vivemos para arriscar, quebrar regras, passar dos limites. E assim vencer. E não para aceitar. E não para viver do que é incompleto. Talvez, aceitando a felicidade incompleta, eu não tenha aprendido a viver. Talvez eu tenha apenas aprendido a aceitar. E isso eu acabei de concluir aqui, nesse instante, enquanto rebobino o filme da minha vida e me assisto.
Sinto-me impotente. Pois eu, que bem entendendo sobre as coisas inúteis da vida, não entendo a vida em sua plenitude. Sou tão desprovida de sensatez que me permito sentir algo que me corrói, que me machuca. E aí penso "Ah, tudo bem. Faz parte". Sou tão desprovida de sensatez que me permito aceitar meus dias longos e tediosos, minhas paixões exageradas e não-recíprocas, minha alegria limitada, minha ilusão de mundo. Sou tão desprovida de sensatez que, ao invés de fazer algo para mudar essa minha realidade, eu estou aqui, escrevendo. E nesse momento, não escrevo para mim, como de costume. Eu escrevo para você - para que possa entrar em contato com os meus pensamentos, e talvez, para que consiga me entender. Entender o porquê eu o amo tanto, dessa forma tão insensata. E entender porque eu aceito sofrer por isso.
Eu poderia dizer que a única coisa que não é incompleta nesse meu mundo, é o amor que eu sinto por você. Porque eu te amo inteiro, de um jeito irritantemente apaixonado, melancólico e louco. E a cada vez que eu penso que te amo, e a cada vez que eu digo que te amo, e a cada vez que eu escrevo que te amo, eu te amo ainda mais. Eu gosto de você de um jeito todo exagerado. Todo desproporcional. E esse amor é tão grande que não cabe aqui dentro - ele transborda, extravasa, e se espalha em torno de mim. É, eu poderia dizer que esse amor não tem nada de incompleto, tão verdadeiro, ingênuo e gigante ele é. Mas ele tem - Você sabe que tem. Porque enquanto eu continuar aqui e você lá, aquele meu quebra-cabeça continuará sem a peça principal: Você.
Mas agora, aqui, eu farei jus à minha mania de aceitar.
Eu aceito a minha vida incompleta. Eu aceito o meu enorme grau de insensatez. Eu aceito o meu amor exagerado. Eu aceito a sua ausência. E, se você quiser, eu te aceito também.

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