domingo, 30 de outubro de 2011

Meu reflexo

Havia uma calmaria anormal cobrindo os ares da cidade. A neblina muito densa, o ar excessivamente seco, gelado, mórbido. As pessoas marchavam às ruas como zumbis - os olhos vidrados, os movimentos sem vida, a boca entreaberta que era o espelho do tédio, da chatice compulsória e da extrema melancolia a que estavam condenados. Sim, estavam condenados - lutavam sem razão, viviam sem querer, respiravam por respirar. Já não sentiam, pois a alma estava morta. E o que é, se me permite indagar, alguém desprovido de alma? É tão humano quanto uma pedra jogada na rua. 
Robôs - essa é a palavra. Aquelas pessoas eram robôs, condenados à existência infinita - existência apenas, visto que já não eram capazes de viver. 
Mas então havia ela. E ela era diferente. Ela estava alheia ao caos. Ela vivia, e viva caminhava por entre os corpos desalmados que atolavam as ruas da cidade. Tudo nela era diferente: Seu jeito de andar repleto de elegância, como se estivesse flutuando; As bochechas coradas, que lhe davam a aparência vívida que tanto a diferenciava dos demais; O ar de riso, onde se misturavam uma alegria quase disfarçada e uma curiosidade acanhada; Os passos que não eram as marchas dadas pelos corpos à sua volta - eram passos repletos de graciosidade. Ela era como uma bailarina em meio a um exército de defuntos. E assim, com sua felicidade única e característica e sua vontade de viver, ela caminhava. Não sabia bem para onde, não sabia nem sequer onde se encontrava. Tudo o que sabia era que havia algo que precisava encontrar, algo que não poderia viver sem. Ninguém poderia.
O silêncio esmagador ameaçava comprimir todos os que ali estavam. O único som que era capaz de quebrá-lo era o dos passos compassados daquelas pessoas-zumbis-robôs, e a melodia delicada que saía por entre os lábios daquela fonte de pureza, em forma de assovio. Apesar da feiúra que a cercava, não parecia incomodada. Pelo contrário - parecia extremamente à vontade. Porque ela enxergava beleza onde não havia.
Ela, inteira bailarina, inteira sonho, magia, unicórnios e ternura, procurava por alguma coisa. Olhava por todos os lados enquanto flutuava em meio ao pavor alheio, inundada em sua própria formosura. E o que procurava, posso afirmar com toda certeza, já não existia - estava extinto. Em um ano qualquer em meio aos milhares que já haviam se passado, aquilo que procurava foi roubado, destruído. E as cinzas que sobraram o vento já se encarregara de levar. O que restava agora era tão pouco que não podia ser percebido, nem sentido, muito menos vivenciado. Mas ainda assim, ela caminhava despreocupada, quase dançando à melodia de seu próprio assovio, enquanto seus olhos procuravam por algo que ela não iria encontrar.
Como era tola! Estava abarrotada de ingenuidade, e não compreendia que o que procurava era tão escasso quanto a alma daqueles corpos que a cercavam. Mas dentro dela, em seu interior, existia algo tão esplêndido que a fazia acreditar. E sobre tudo existia algo tão divino que lhe dava esperança para acreditar. Era como uma rosa que florescia em meio a ervas daninhas. Era maravilhoso e triste ao mesmo tempo. Maravilhoso porque era lindo de se ver, um verdadeiro espetáculo. E triste porque aquele "algo" que existia dentro dela cedo ou tarde iria morrer. Mais especificamente, iria morrer quando ela percebesse que estava buscando por algo que fora a muito erradicado. Iria ser morto pela decepção, pela tristeza, e principalmente pela sensatez - que abriria seus olhos e lhe mostraria a realidade a que estava submetida. E então, quando finalmente esse "algo" dentro dela morresse, sua alma morreria junto, e ela poderia finalmente juntar-se àqueles que agora marcham à sua volta o grito do caos.
O amor. Ela procurava pelo amor - qualquer fragmento dele. Porque ela queria sentir, queria viver. E ela o dividiria - não o queria só para si. Estava disposta a reparti-lo com todos que quisessem um pouquinho do seu amor. Nem precisariam pedir - só precisavam cruzar seu caminho.
E assim, toda ingênua e feliz, sem nem um pouco de medo ou preocupação, ela caminhava por entre o caos, em busca do amor que já não existia.
Bailarinando a esperança, ela caminhava. 
Bailarinando a esperança, eu caminho.


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