terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Catástrofe

Sou a paz que antecede uma tempestade. Sou o nada que caminha sem rumo por estradas infinitas, esperando encontrar o que não sei se existe. Pressinto o caos que paira sobre mim, esperando apenas por um espirro para desmoronar. E espirro, e sinto a catástrofe, e enfrento-a. Pois enquanto não houver uma tempestade, o medo se alastrará. Mas o mesmo se esvai com a calmaria que vem depois...


Um homem, um banco e um guarda-chuva

Foi ali que eu o vi pela primeira vez, sentado no banco da praça, de pernas cruzadas e olhar distante. Uma figura alta e pálida, de mãos nervosas e pernas trêmulas - cabisbaixo, frívolo. Não se destacaria em um grupo de pessoas, não se destacaria nem se andasse com uma melancia na cabeça. Entretanto, conseguiu me chamar a atenção.
Da janela do terceiro andar de um condomínio sem graça, observo aquele rapaz tristonho sentar-se todos os dias na mesma posição e fixar os olhos mortos em algum lugar que só ele é capaz de ver. E passa horas a não fazer nada, apenas tornando-se parte do cenário da praça como uma figura sem importância. Às seis da tarde, ele olha para o céu, como que esperando um milagre. Depois levanta-se, pega o guarda-chuva que sempre carrega consigo, e desata a andar em passos largos e apressados, desaparecendo na multidão.
E todos os dias, o jovem magricela fazia a mesma coisa. Chegava, sentava-se no banco, passava horas emudecido, depois olhava para o céu, se levantava e ia embora. Muitas vezes pensei em cumprimentá-lo, perguntar seu nome, o que fazia da vida, ou até mesmo o que fazia ali, naquele banco. Mas sempre alguma coisa me impedia - não sei se por vergonha ou covardia, nunca arrisquei puxar conversa com aquele rapaz.
Um dia, o rapaz misterioso não apareceu no banco. Nem no dia seguinte. Nem no outro, nem no outro, nem no outro. Agora, eu já não mais o via sentado com olhar distante, nem às seis horas da tarde pegar seu guarda-chuva e ir embora. Agora, nada mais restava que um banco de concreto vazio. Tão vazio, tão abandonado, tão indiferente...
Certo dia, ao passar pelo banco da praça, lembrei daquela triste figura. Já não o via à meses, e não pude evitar sentir um lampejo de aflição. Sem pensar direito, resolvi sentar-me no banco. Cruzei as pernas, e observei a praça à minha volta. Crianças brincavam, pessoas passeavam com seus cachorros, carrinhos de sorvete tiniam musiquinhas. E passei um bom tempo ali, parada, absorvendo energias positivas. Às seis horas, olhei para o céu. "Já vai escurecer" eu pensei.
Então, peguei meu casaco, levantei-me e fui embora. E esperei o dia seguinte, para que pudesse fazer tudo de novo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Nós

E avisto, meio grogue, meio zen, aquela figura que me aflige, que me espanta e me faz bem. Me olha com seu olhar decidido, me arranca um suspiro, me fere com um sorriso zombeteiro, e canta ao infinito seu poder sobre mim. Não me tens em suas mãos, nem mesmo em seu coração, pois já que me acostumei com sua ausência e arrogância. Contudo, consegue me tirar o fôlego com suas poses ensaiadas, seus pensamentos ignorantes e seu sentimentalismo infantil. E perco, e cedo à ele, e volto atrás no instante seguinte, quando já me foi propiciado faíscas daquele amor louco. Amor não, amor não - não queremos que essa palavra especial dê nome à um embolorado de hipocrisia e enrolação. Carinho, talvez. Atração, com certeza. Nem mais, nem menos - no ponto: Nada muito especial. É o que somos, afinal - Uma bagunça feia, desajeitada e irreal. Nem um, nem outro, mas os dois! Presos em um sentimento falso, sem saber se nos entregamos ou se nos ignoramos, sem saber se avançamos ou se estacamos e permanecemos assim, do jeito que está. Um pé aqui, outro lá - sempre invadindo o território um do outro. E sem saber porquê, empinamos nossos narizes para ignorarmos os erros esparramados aos nossos pés. O orgulho nos mata, e não sentimos, pois já estamos mortos. E nem ligamos! Nem ligamos, pois que o sofrimento do outro nos dá a vida que precisamos. E assim, nos alimentamos da lágrima, do arrependimento, da falsidade - E nos mantemos vivos por fora, enquanto apodrecemos por dentro.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Uma noite Cecília

E devoro a minha alma enquanto mergulho nas palavras de Cecília Meireles, na solidão de uma noite sem fim, e que no entanto já está quase no fim. "Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acaba todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer. E então serás eterno." 
O medo do fim. - Que será o fim? - Eu penso, enquanto acendo um cigarro. Dou a primeira tragada com força, sugando a fumaça densa para os meus pulmões escuros. Depois a solto, e ela sobe leve, mansa, com sua branquidão quase transparente. - Que será o fim? - Penso. E então dispenso. Dispenso o ato de pensar - e aí está o fim de um pensamento. Mas não é um fim, pois logo disparo a pensar novamente. E quando a gente sabe que alguma coisa realmente chegou ao fim? Ela pode retomar de onde parou a qualquer momento. Como o meu pensamento, como alguém que saiu de sua vida para nunca mais voltar, mas que você encontra num dia chuvoso na esquina de um bar. Como um Adeus que não é pra sempre, ou a morte de um sentimento que na verdade nunca te abandona. O fim só é fim quando não se é esperado. 
"... Eu te esperei todos os séculos, sem desespero e sem desgosto, e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto..." A cinza do cigarro está comprida, e já não me resta nada além de uma última tragada. Fecho os olhos por um instante, não tentando imaginar nada, mas tentando me posicionar. No mundo, talvez. Em mim mesma? Não sei. Mas permaneço de olhos fechados, imóvel na sala escura e vazia. Sempre o mesmo rosto. E ele aparece abruptamente, como se tivesse escutado seu nome. Não tento afastar sua imagem, pois apesar daqueles traços me causarem desconforto, é um desconforto que me conforta. Eu te esperei todos os séculos. E continuo esperando, eu penso. Sentada aqui e agora, espero um telefonema, um telegrama, uma carta, um alô, um Adeus, um abraço, um beijo. Espero, e espero, e continuo esperando o dia em que o fim retome de onde parou com letra maiúscula. E então escreva mais um parágrafo. Grande, de preferência.
"Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica os teus braços, para semeares tudo. Destrói os olhos que tiverem visto. Cria outros, para as visões novas. Destrói os braços que tiverem semeado, Para se esquecerem de colher. Sê sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre longe. E dentro de tudo." Quero um café. Então me lembro da xícara que havia esquecido ao meu lado, em cima de uma montanha de livros. Tomo um gole, faço uma careta - Café frio e amargo. É o que se resume tudo isso, na verdade: A frieza e o amargor, unidos, cercando toda uma vida vazia. "De longe te hei de amar, - da tranquila distância em que o amor é saudade e o desejo, constância." Está do outro lado da rua, e no entanto é como se estivesse no outro lado do mundo. Queria eu poder atravessar a rua, pegar tua mão e caminhar até onde nossos olhos não podem ver. Queria eu poder amar-te não de longe, nem de perto, mas de todo. "Quero uma solidão, quero um silêncio, uma noite de abismo e a alma inconsútil, para esquecer que vivo, libertar-me das paredes, de tudo que aprisiona; atravessar demoras, vencer tempos pululantes de enredos e tropeços, quebrar limites, extinguir murmúrios, deixar cair as frívolas colunas de alegorias vagamente erguidas. Ser tua sombra, tua sombra, apenas, e estar vendo e sonhando à tua sombra a existência do amor ressuscitada. Falar contigo pelo deserto." Chove lá fora, e não havia percebido. Ultimamente vivo como quem não vive, e me disperso, e me deixo levar. Estou à mercê da vida, e subsisto conforme os dias, atravessando os séculos sem nem me dar conta. Esta noite em si é pura, como no poema de Cecília - Solitária, silenciosa. E quase esqueci que vivo, e quase me torno liberta. Mas o que me aprisiona é aquele pelo qual eu viraria sombra. É aquele pelo qual eu amaria de longe. É aquele pelo qual eu renasceria em mim mesma. É aquele pelo qual eu esperei todos os séculos. E é aquele que me empurra o medo do fim goela abaixo, pois ele é o fim em questão. 
Eu morri de amor e nem havia me dado conta!





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Epifanias de outrora

No teu olhar obscuro, encontro uma faísca de luz. 
E me ilumina, e me compreende, e me quer bem. 
Me arrasta, e me controla, e me arranca as forças enquanto me examina. 
E me corrige, me observa, e lê a minha alma prolixa e bagunçada, 
Para então lavar as impurezas acumuladas nos cantos de um amor fugaz. 
Me encara, me tira o fôlego, me deixa sem graça e não se julga culpado. 
Me fala, me cala, me deixa, e some. 
Some tão veloz que não me deixa ver, 
Some tão veloz que não me deixa sentir,
E suga consigo as breves epifanias de outrora. 

Na sua ausência me rouba a luz; 
Na minha ausência me deixa no escuro.
Mas me observa escondido na essência das trevas, 
Esperando o momento em que faíscas de luz em seu olhar obscuro
poderão me encontrar outra vez, 
E me iluminar, e me compreender, e me querer bem.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Insano amor

Jazia morto, envolto em neve e desilusão. E os dias velhos, velhos dias, aqueles repletos de sorrisos e abraços, são dias que não voltam mais! Escurecia o céu, emudecia a noite, e permanecia o cadáver de olhos vidrados - Sem vida, sem cor, sem nada. O silêncio trazia uma paz pérfida, a máscara do caos, e o sangue vermelho coloria a brancura da neve - vermelho morte, o sorriso do fim. Oh, se fosse possível escolher viver quando já não há vida! Se fosse possível amar onde já não se há amor! E respirar quando já não existe ar! Então escolheria viver por ti, e nessa vida escolheria amar-te, e amando suspiraria ao te ver passar. E talvez não estivesse estirado diante de mim, como um pedaço de carne humana - pobre criatura! Não teve oportunidade de viver por mim, mas teve a oportunidade de morrer por mim. Grande prova de carinho, eu diria, se não tivessem as minhas mãos contribuído para tal tragédia. Tragédia? Não chamo de tragédia o que estava escrito para acontecer. Pois o destino, ah! O destino não erra. Morreríamos juntos como um só coração no livro da vida, então morreremos juntos nas terras molhadas do Adeus...