Mãe, pai, amigos: Eu me dispersei.
E isso é justamente o que me apavora, me corrói.
E lá estava eu novamente, caminhando a passos largos pelas estradas do "bem-me-quer-mal-me-quer", com medo de arriscar, mas ainda assim arriscando, como uma cega num matagal de espinhos, tentando encontrar o que eu já havia encontrado, mas que me escapara, e fugira, e se escondera. Lá estava eu novamente, tentando desesperadamente alcançar algo bem maior que eu, pensando que seria não tão fácil, mas que também não fosse assim tão difícil. Lá estava eu, quando me deparei com o Quase encostado a uma árvore, de pés cruzados e cachimbo na boca. Ele me encarou com um olhar sarcástico, e foi mais ou menos assim: Calma aí, mocinha, você não vai conseguir assim tão fácil. Tudo bem, eu pensei. Então eu continuei, e insisti mais um pouco, e caminhei, e me surpreendi, e tentei não me desvirtuar, tentei não falhar, e tentei, e tentei, e tentei. E novamente me surpreendi com o Quase, dessa vez parado numa esquina, fumando um cigarro e me encarando com um sorriso faminto e malicioso. E novamente foi quase, mas não foi. Então, cansada dos Quases que a vida me enfiou goela abaixo, eu, cercada com esses sentimentos ruins que nós sentimos quando somos forçados a desistir, e com a minha mania idiota de me dispersar, me dispersei. E fatalmente fodi com tudo.
Não sei no quê exatamente por a culpa, então eu culpo as portas. Essas portas que eu esqueço entreabertas, sempre deixando entrar, sempre deixando sair. Quando tudo pode ser, tudo é - o bom e o mal também. Por isso o jeito é afastar-se dessa liberdade ilimitada e fechar bem essas portas. Eu não fechei. E o que tinha pra acontecer, aconteceu. O bom e o mal também.
Ultimamente, penso que esgotei a minha capacidade de sofrer. Tem a ver com os erros meus, com os erros seus, e com essas consequências absurdas que a gente ganha de brinde. Talvez eu só tenha me acostumado. O talvez eu tenha ultrapassado a linha limite entre o simples sofrer e O SOFRER. Porque o que costumava me atingir já não me atinge com tanta força, e o que costumava me afligir já não me aflige mais, o que costumava me afetar já não me afeta tanto assim. É só uma pontada de dor, uma tristeza repentina que desaparece tão rápido quanto o abrir e o fechar dos olhos. E então me vem o vazio.
Olhe só o que eu fiz. Por falta das palavras certas a dizer, eu peço que me perdoe. Perdoe minha tentativas inábeis de tentar e não conseguir. Perdoe minha precariedade, minhas atitudes sujas e desajeitadas, o meu jeito de amar tão imenso e incompreendido. Perdoe-me por tirar tanto do seu tempo, perdoe-me por não ser exatamente perfeita. Perdoe-me. Perdoe-me. Estou me dispersando... Aliás, me perdoe por isso também.
Eu poderia simplesmente sair das vidas de todos vocês. Poderia apenas viver a minha. Sabe, acordar, tomar café, assistir um filme, ouvir música na rede, ler um livro, dar uma caminhada. Sem incômodos, sem frustrações, sem equívocos. Tenho certeza que eu poderia sumir da vida de muitas pessoas. Só não tenho certeza se eu conseguiria sumir da vida "daquela pessoa". E no entanto, é isso que eu deveria fazer.
Eu estou sempre me surpreendendo. Comigo, com os outros, com tudo. Me surpreendi por amar assim, me surpreendi por não ser amada, e por ser, digamos, gostada-de-um-jeito-romantiquinho, e ainda me surpreendi por aquilo que chamamos de amor ter virado uma grande bagunça, e por ter nos afogado com tamanha esperteza, e pelo fato de estarmos sempre tentando chegar à superfície, apesar de que talvez não exista uma. O problema é que eu não gosto de me surpreender.
Acho que a única coisa que eu realmente desejo é que tudo valha a pena. Que seja tudo, que não seja nada. Mas que no final, eu possa não me arrepender. Que no final, eu não me disperse. Que no final, você me queira bem.
Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer... Bem me quer... Mal me quer...

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